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Gosto de todos por igual!
Não é verdade que os pais gostem sempre dos filhos, que gostem deles para sempre e da mesma forma

Não é verdade que os pais gostem sempre dos filhos. Que gostem deles para sempre. Que gostem de todos da mesma maneira. Que os dois pais gostem de cada filho de forma igual. E não é verdade que nada disso faça dos pais... maus pais.

Eu sei que, dito desta forma, muitos pais, ao olharem um filho, ficarão de coração apertado. E que tudo isto lhes pareça interdito, até de pensar. Mas vamos por partes.

O momento de vida e o timing duma relação em que se descobriu que um bebé ia nascer condicionam muito a forma como se gosta dele. Porque, às vezes, não será “o momento certo” para ele nascer. Porque, quase sem darem por isso, a relação dos pais se terá tornado mais fraterna do que amorosa. Porque, financeiramente, um filho é um encargo significativo. Porque o sexo do bebé é ”um bocadinho ao lado” daquilo que se deseja. Porque na forma como se gosta dele se baralha aquilo que somos, tudo aquilo que não gostamos em nós, as parecenças em relação a alguns aspectos do outro pai com que mais embirramos, etc. Ou porque os primeiros tempos do bebé arrasaram a mãe e fracturaram um bocadinho a relação dos pais. Ou seja, há muitas condicionantes que fazem com que os pais queiram muito amar um filho e sejam, contra a sua vontade, “atropelados” no seu amor. Nem sempre da mesma forma. E, seguramente, de modos diferentes com cada um dos seus filhos. 

E, depois, quer seja na forma como ele ri, como é atrevido ou medroso, como se despacha a falar ou como é uma "delícia" naquilo que faz, ou como dá mimo e acarinha, os filhos vão construindo “pontes de cumplicidade” com cada um dos pais. O que quer dizer que, sim, é verdade que todos os pais têm o seu “fraquinho” por um dos filhos. Não é que gostem mais dele. É só um “fraquinho”. Com a particularidade desse “fraquinho” desencadear nos irmãos a  sensação de que isso faz com que haja um dos irmãos que é “o menino querido da mamã” ou o “filho querido” do pai. Com todo o pacote de manifestações de ciúme com que isso vem acompanhado. E com todo um sentimento de insegurança, por parte dos pais, que faz com que, em vez de serem pais em “piloto automático”, haja um estar muito atrapalhado, de cada um dos pais em relação a todos os filhos, pensado e medido além do que admitem. Isto é, quem não foi, nalgum momento, “o filho querido” da mãe ou do pai, nunca foi filho. Quem o tenha sido para sempre nunca o será. 

Que fique, pois, claro que aquela fórmula (bondosa!) dos pais que os leva a afirmar: “Eu gosto de todos por igual!” não é verdade! Nem precisaria de ser. Em primeiro lugar, porque, enquanto pais, nunca somos iguais de todas as vezes que temos um filho. Nem faria, aliás, sentido que fôssemos. Por outras palavras, aprenderemos a ser pais à medida que temos filhos. Em segundo lugar, nem sempre ajuda que um dos nossos filhos tenha o mesmo sexo que nós. Até porque, às vezes, somos mais exigentes e mais intolerantes para com os filhos nos quais identificamos algumas das nossas características com que vivemos pior, a ponto de os querermos poupar aos custos que elas nos trouxeram, vida fora, exigindo-lhes mais. Em terceiro lugar, basta que um dos nossos filhos seja o mais pequenino para que ele se transforme n’ "o nosso bebé”; o que faz com os outros se sintam, por via disso, um bocadinho menos filhos. Em quarto lugar, é à medida que somos pais que vamos deixando de ser um bocadinho egocêntricos, enquanto pais, e aprendemos a sentir e a ler nossos filhos e “apanhamos o jeito” para falar e para lidar com eles. E, finalmente, não é por sermos rigorosos na forma como damos tempo a qualquer um deles, repartimos os recursos que colocamos ao dispor de todos os filhos ou atribuímos um mesmo valor às prendas e aos presentes que lhes damos que, só por isso, somos iguais para todos. Às vezes, exatamente ao contrário daquilo que será a nossa intenção, acontece exatamente o oposto. Só reclamamos, com ênfase, que somos iguais para todos quando acabamos a reconhecer, clandestinamente, que não seremos tão iguais para todos eles como desejaríamos ou como devíamos ser.

Acontece, também, que algumas “arestas” mais “ásperas” que persistem na relação entre o pai e a mãe tendem a “espalhar-se” para os filhos. Dessa forma, é normal que os pais “peguem” mais com um dos filhos que reproduza “vícios de forma” do outro dos pais, com que se embirra,  ou que ele “pague” por ser merecer mais atenção do outro dos pais. E que, sem se dar por isso que isso tudo leve a que sobre um dos nossos filhos caiam algumas “facturas” duma relação de pais que nem sempre será clara, conversada e arejada. O que, só por si, faz com que haja filhos a sentirem-se a injustiçados e daí, só porque um dos pais “pega” mais consigo, ele seja levado a presumir que ele gostará mais... dos outros.

E, depois, sejamos claros: da mesma forma como é importante que os filhos se orgulhem dos pais, é fundamental que os pais sintam orgulho pelos filhos. Pelas pessoas em que se estão a tornar. Pelas “façanhas” que conquistam. Ou pela forma como se destacam. Mas nem sempre isso acontece assim. É normal que algum dos nossos filhos, alguma vez, nos embarace. Ou que nos advirtam, como quem nos repreende, por alguma asneira que lhe atribuam. Ou seja, os nossos filhos, por vezes, envergonham-nos. E nem sempre “temos cabeça” para reagir de forma compreensiva e pensante. Às vezes, reagimos num impulso. E dizemos aquilo que queremos e tudo o que não queremos. E, pior, engasgamo-nos quando se trata de lhes pedir desculpa ficando, portanto, um clima “chato” entre eles e nós. O que faz com que os pais vão desistindo, “aos poucos”, de intervir, de corrigir ou de repreender. E se vão tomando algumas dessas manifestações passageiras dos nossos filhos como “defeitos de fabrico”. Sem a clareza de assumirmos que aquilo em que eles se tornaram tem tudo a ver com os pais que eles foram tendo. E que - muito mais importante - que, de cada vez que desistimos de ser melhores pais desistimos mais um bocadinho de um filho. Hoje, um pouco mais. Amanhã, mais; ainda. E assim sucessivamente. Por medo. Por insegurança. Ou por vaidade nossa, também.

Em resumo, o que é nos estraga na relação com os nossos filhos? Esta ideia (bondosa!) que amamos os nossos filhos todos por igual. Sem pedir nada em troca. Com o pressuposto de que o amor de pais é um amor desinteressado. E que, façam eles o que fizerem, que os amaremos para sempre. Sem condições! E nada disso é sempre assim. Para amarmos precisamos de nos sentir amados. Precisamos de admiração e orgulho por quem amamos. Damos, sem limites, porque sabemos que quanto mais dermos mais amor teremos, em troca. Ou seja, o nosso amor é interessado, sim! Aliás, pode um amor ser outra coisa que não seja uma declaração desmedida de interesse pelo amor de alguém? Sendo assim, não é mesmo verdade que os pais gostem sempre dos filhos. Que gostem deles para sempre. Que gostem de todos da mesma maneira. E que os dois pais gostem de cada filho de forma igual. Mas é, inequivocamente, verdade que isso nos ajuda a ser melhores pais. Que nos leva a pôr em questão. Que nos leva a crescer. E nos ajuda a perceber que as nossas convicções nem sempre coincidem com as nossas palavras e com os nossos gestos. E a reconhecer, com descanso, que o coração bondoso de todos os pais precisa de pequenos remorsos para ser maior e melhor. Todos os dias.

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