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Lembra-te de mim, pai!
Quando os nossos filhos nos puxam para bem perto do coração

"- Lembra-te de mim, pai. Lembra-te de mim!"

Eu sorri, claro. Achei que, para alguém com três anos, que não sabe a diferença entre um signo e um símbolo, ser capaz de me imaginar na sua ausência, lhe dava uma visão sobre o presente e o futuro capaz da mais inacreditável abstração. E sorri para ele. Outra vez. Agora, vaidosamente. E não é que ele é - mesmo! - inteligente?... Depois, dei-lhe um abraço. Dos grandes. À homem, pois. Ele, como quem faz uma lamúria, disse-me que ia ter saudades minhas. Eu, à boleia de um afago nos caracóis, com um nó na garganta (que ninguém percebeu!), respondi que o tempo ia passar depressa. E separámos-nos, os dois.
A verdade é que não me lembro tantas vezes dele como eu acho que devia. O exercício de nos lembrarmos parece ser um jeito que se perde, sobretudo quando nos deixamos engolir pela “realidade”. Acho que só agora descobri que as saudades só existem porque desistimos de nos lembrar.
“A realidade” é um ermo desprovido de amor. E - acho eu - foi isso que o meu rapaz mais pequeno me quis dizer. Não te percas por entre as “coisas reais”, pai! Não te deixes atulhar com porcarias. Não te transformes num ermo. Simples! Mas, se te perderes (eu perco-me, muitas vezes...), lembra-te de mim. E eu lembrei, meu filho. E a prova está aqui. De cada vez que me lembro, e escrevo para ti, eu não tenho saudades. Mas, não sei bem o que se passa, apetece-me, logo a seguir, ir (mais depressa) ter contigo!
O tempo só passa depressa quando “a realidade” nos transforma num ermo. E, de tudo, o que mais quero é que o tempo passe devagar. Para estar mais tempo ao pé de ti. Porque ao pé de ti o tempo estica. E porque as coisas que me dás ficam a saltitar, dentro de mim. Quando me lembro delas, o ontem e o depois já não existem. E ficas tu. E os teus caracóis, claro. E esta coisa de não ser preciso nem de me lembrar. E eu sorri. Às vezes, desconfio que devia ter mais vezes três anos para aprender a amar.

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