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Mãe em alerta amarelo
Risco sério de explosão

Há quem fale abrindo a boca. E quem fale "para dentro" (que é uma forma se de falar sem ter grande esperança em ser-se escutado). E há, claro, quem fale "entredentes". E essa característica - quase tão difícil como a arte de um ventríloquo - tem a imagem de marca d’ "a mãe".

Para quem o escuta, o falar "entredentes" é um "ruído de fundo" cheio de "res" (re-re-re-re...), muito difícil de reproduzir, que faz lembrar uma engrenagem mecânica (razoavelmente oleada), atravessada por um discurso, muitas vezes imperceptível, que - dá para perceber - vem acompanhado por "impropérios de mãe", ditos em surdina. Como: "a minha vontade é atirá-lo pela janela". Ou: "qualquer tiro férias deles todos e depois é que eu quero ver". Ou: "a minha vontade é não mexer uma palha e, depois, vamos lá ver se continuam a chamar pelo pai...zinho" (Ui! Quando a mãe se debruça sobre o "-zinho", carregando no z, a coisa não é para brincadeiras!).

O português entredentes da mãe é uma arte! Pelas consoantes, que se atrapalham umas às outras, faz lembrar uma língua nórdica. Pela forma como ele é falado, em português de Portugal, tem tudo a ver a ver com uma língua familiar; se bem que sussurrada. Mas falar duas línguas ao mesmo tempo, cerrando os maxilares e quase não mexendo os dentes, ao mesmo tempo que os músculos da face ficam num alerta geral, enquanto a mãe vira "tornado" - e tudo aquilo em que toca fica do avesso! - não é para todos. Nem mesmo os melhores performers do America’s Got Talent conseguem fazer isso tudo, ao mesmo tempo! Quem mais, senão a mãe, consegue resmungar de boca fechada enquanto, tomada de fúrias, põe o mundo em sentido?...

Seja como for, o falar entredentes da mãe tem um efeito dissuasor em todos os filhos que é digno de nota! Na verdade, funciona como um alerta amarelo! Quando repara que a mãe fala entredentes, uma criança torna-se, subitamente, exemplar. É verdade que lhe falta o fôlego para dizer "mãe querida" ou "gosto muito de ti". E - reconheço, também - fica logo disposta a colaborar, de forma empenhada, com qualquer exigência mais ou menos esdrúxula que a mãe lhe faça. Mas a senha, nessas alturas é: "Não fales! Não mexas! E não respires!". Porque a mãe, em alerta amarelo, é um aviso - muito sério! - que há uma tempestade (e das grandes!) que está para chegar.

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