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Não se cresce sem dor
Ao contrário do que todos desejaríamos

Devagarinho foi ganhando espaço a ideia que não devemos “forçar”, “impor” ou “exigir” alguns comportamentos e mudanças aos nossos filhos. Porque “têm pouco tempo para ser crianças”. Porque seria pouco “democrático”. Ou porque devemos dar a oportunidade serem eles a decidir o momento em que abandonam um determinado comportamento. Seja prescindirem da chucha. Abandonarem as fraldas. Ou deixarem de acabar as noites com os pais. No fundo, foi-se criando a ideia que contrariar é traumatizar. Como se qualquer não, sem um “comboio” de explicações e justificações, doesse a uma criança.

Ora, não questiono que um “não” doa. Nem a bondade da intenção com que os pais e os seus “nãos” se vão relacionando com as filhos. Mas acho que muitos pais talvez tenham crescido com tantos “nãos” imperativos e pouco razoáveis que, na ânsia de darem aos filhos a oportunidade deles terem a opinião que os pais não puderam ter, construíram esta ideia de um não “amigo” do traumatismo.

Nenhuma infância é só “rosa”. Dela guardam-se todas as memórias: a tarte de maçã da avó; o colo da mãe; aquilo que assustou; o tom, ora misterioso ora “cheio de picos”, do olhar dos nossos pais; ou as situações infelizes que, sem querer, nos criaram. Às vezes, levamos a vida toda à espera que algumas destas memórias se apaguem. Como se desejássemos passar a ser indiferentes diante delas.

Os pais são, de facto, os primeiros e grandes responsáveis por sermos como somos. E, muito longe de representar alguma coisa com que devam atormentar-se, deve ser um motivo do maior orgulho! Se bem que, porque os pais não são perfeitos, haja sempre episódios que todos ganharíamos se nunca tivessem existido. Porque doem, mesmo quando se recordam. É em relação a estes que é tremendamente sensível falar-se da responsabilidade dos pais. Porque eles vivem isso como se alguém os estivesse a culpar. E não é verdade. Os pais são responsáveis; mas não são culpados. As coisas acontecem não por eles quererem. Mas porque não as conseguiram evitar.

 

versão alterada de artigo publicado originalmente no 

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