Se uma pessoa se engasga toda quando se trata de dizer aos pais que tem um namorado, quando precisa de conversar com um filho acerca dele engasga-se, seguramente, muito mais.
O patamar da entrada será: “Este, é um amigo da mãe...” (as reticências fazem toda a diferença, como sabe). “Um amigo da mãe” não é nem o Bernardo nem o Tobias. Não tem, portanto, o estatuto mais “indiferenciado”, digamos assim, de todos os amigos da mãe que têm um nome, se movimentam com descontracção diante das crianças e ao pé dela, e perante os quais a mãe assume (com naturalidade) todos os seus gestos. Não. “Um amigo da mãe” é uma promoção que deixa qualquer filho num sobreaviso. Pressupõe um estatuto à parte. Tem o seu quê de apresentação de credenciais. Nem a mãe está natural (sorri com uma indisfarçável tensão, quando o apresenta, e os seus gestos fervilham nalgum “nervoso miudinho”) nem “o amigo” em questão será, nesse momento, o “mister simpatia” (sobretudo quando se sente avaliado, em cada um dos seus passos, por um olhar do género: “mas quem é este pára-quedista?”, que qualquer criança entrecorta com uma aparente indiferença infantil, e por outro olhar, entre o aflito e o “mostra-me i-ne-qui-vo-ca-men-te que gostas dele, sim?...”, que todas as mães não deixam de ter nessas alturas). Diante do tal “amigo da mãe”, por mais que ninguém lhe peça nem uma carta de motivação nem lhe solicite que disserte sobre as suas mais profundas intenções em relação a ela, é natural que uma criança ora lhe peça que se sente no chão e que brinque com os legos (às vezes devia haver cursos de formação para os amigos da mãe, em relação ao modo como é suposto que sentem no chão a brincar, não é?...), ora lhe pega pela mão e o leva até ao seu quarto e aos seus brinquedos (que faz com que a mãe exulte com um sorriso que, se tivesse legendas, quereria dizer:” Oh!!!! Eles dão-se tão bem!...”, mas que, aos olhos duma criança, talvez queria dizer: “olha lá, ó “amigo da mãe”: tens bem noção no que é que estás a meter?”).
Se os diversos momentos de avaliação recíproca trouxerem uma espécie de passagem para níveis, sempre mais complexos, de aprovação do “tal senhor”, é muito provável que o estatuto de “um amigo da mãe” o leve a uma promoção. Passará a ser “O Amigo da mãe” (“O amigo”. No singular). Que, sem sequer ser preciso que se esclareça com toda a clareza, significa: “temos namoro”. E aí, é natural que “o amigo da mãe” seja uma visita mais frequente, jante algumas vezes e durma lá em casa. Às escondidas da criança, claro. Até que haverá um dia em que dorme no sofá (“oh que alegria!”, pensa uma criança, ao ver que, nessas alturas, a mãe nunca protesta por se ter o Canal Panda ligado de manhã à noite...). Depois, faz uma viagem de fim-de-semana; só com a mãe (a criança fica muito bem entregue aos cuidados do pai mas, deixemo-nos de dúvidas, “o amigo da mãe” começa a reunir créditos para passar para um patamar do género: “mas, afinal, o que é que quer mesmo “esse senhor”?...). Vem a primeira viagem a três. Tudo muito decente: quarto twin, cama suplementar, entre a mãe e o tal “amigo”, e os crescidos, delicadamente, a portarem-se com todo o juízo. Até ao dia em que o “amigo da mãe”, depois das primeiras férias em que ele apareceu equipado com mais duas crianças (Ena!! Tantos maninhos!!!!), passou a viver ali em casa.
Estamos, portanto, a chegar ao degrau em que se faz a transição de “o amigo da mãe” para “o namorado da mãe”. Se não houver outras interferências que tragam “ruído” ao estatuto de “namorado da mãe” (os “à partes” do pai da criança a perguntar-lhe: “Mas tens a certeza que ele não ralhou contigo”, e outras coisas do género) estamos a chegar ao patamar em que o dito namorado, quando uma criança começa uma birra mais ou menos estridente ou a luta em torno da forma como se escovam os dentes chega ao rubro, se habilita à categoria de “e não é que ele, afinal, não passa dum totó?” quando, quase ofegante, chega à cozinha e, como quem telefone para o 112, diz, numa voz alarmada: “Leonor?!... Depressa! O teu filho está a fazer uma birra!...”). Por outras palavras, sempre que “o namorado da mãe” deixa à mãe, em exclusividade de funções, o papel de ser “a autoridade” lá de casa habilita-se, por sensatez e com bondade, a tornar-se, a prazo, n’ “aquele senhor” com que, de desafio em desafio, alguns adolescentes vão tentando perceber se “o namorado da mãe” estará à altura para se tornar num padrasto.
Um padrasto é, então, “o namorado da mãe”, a participar em quase todos os momentos duma criança, (excluindo “a história”, ao adormecer; as “avaliações de desempenho” do género: “Como é que correu a escola? O que é que foi o almoço? E: Tens trabalhos de casa?”; e, a já clássica, exigência materna de pôr e tirar o champô a uma criança) mas com direito a interferir nas regras lá de casa. E a recomendar, com bonomia e com delicadeza: “Tu não podes falar assim com a tua mãe! Sim?...”
Quando é que um padrasto adquire a qualificação de “segundo pai”? Quando divide todas as responsabilidades com a mãe e não é nem fulminado com o seu olhar, nem contrariado “em directo e ao vivo”, nem é repreendido, advertido ou sancionado com o “lado de leoa da mãe” sempre que ele levanta a voz, mede forças ou dá, até, uma palmada a uma criança, mal ela precise que lhe expliquem “onde pára a polícia”. Sem ser preciso telefonar para o 112, claro.
Por outras palavras, é muito difícil passar de “amigo da mãe” a “segundo pai”. Dá trabalho. Exige bom senso. Implica discussões “por causa” das crianças. Requer alguns momentos em que todos suspiram por um fim-de-semana sem elas. E pressupõe vários momentos em que a mãe e “o amigo” se perguntam, para si próprios, com muitas reticências à mistura, se não se terão metido numa grande embrulhada. Mas quem quer amar os filhos e namorar com “o amigo” e sente que não tem direito a dúvidas ou deve acabar a ter de escolher entre um e outro, não merece ser feliz.