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O papá chegou!
O pai mudou mais em duas quarentenas do que terá mudado numa só geração

Quem acha que as famílias estão a lidar de forma quase heróica com o confinamento está enganado. Porque os heróis não barafustam, entre embalagens de bolachas e mais um "pai, fiz cocó!". Nem amaldiçoam a sua vida quando os cabos se emaranham uns nos outros e parecem ter vontade própria. Nem arrancam os cabelos entre deitar o olho ao ecrã e à exploração de uma criança. Nem cedem na forma como as escolas capricham no "dress code" com que se está em casa (!), e não os pijamas como uniformes. Nem dão murros na mesa (nem se perdem por impropérios) sempre o computador fez uma "pane seca" e fica sem bateria, mesmo a meio de mais uma call.

Quem acha que as famílias até não se portaram nada mal com os confinamentos perguntem aos pais se é tranquila a vida em "modo de bombeiro voluntário". E perguntem-lhes se não é uma experiência radical fazer de "barata tonta" e correr para todos os lados, o tempo todo, e chegar ao fim do dia com a sensação que tudo lá por casa "ardeu" em lume brando. E que se discutiu a torto e a direito. Sobretudo sobre porcariazinhas. Enquanto todos precisam de todos. Todos sentem que já não se podem ver. E, de vez em quando, todos têm umas "filoxeras" estranhas e, nalgum momento do dia, lhes passa sempre pela cabeça mandarem alguém pela janela fora.

Quem acha que as famílias são um exemplo de clareira de sol, de de ar de montanha ou de oásis de serenidade perguntem aos pais se, à conta de tanto não namorarem, não são, hoje, muito mais amigos e muito menos apaixonados um pelo outro!

E quem acha que as famílias, com a pandemia, são um sol radioso de pessoas sorridentes vejam as barbas em reboliço. E a greve de zelo às tintas de cabelo. E não entrem na cozinha sem tomarem um chá (dos poderosos!) para os nervos. E fechem os olhos (e contem até 100) antes de se aventurarem pelo quarto das crianças. E tomem como "cosy" o estilo mais "négligé" que encontra charme numa camisa que liga com umas calças de pijama, ou que faz com que uns chinelinhos brancos do Star Wars fiquem "a matar" com um vestido preto e um colar.

Mas quem acha que as famílias estão a ser um bocadinho heróicas pode não estar assim tão equivocado. Os confinamentos fizeram com que "o papá chegou!", de antigamente, tenha uma validade, surpreendente, nos tempos que correm. A pandemia mudou o pai! E, por força das circunstâncias, fez com que ele participasse muitíssimo mais na vida da família. Fez com que ele fosse mais pai. Que conhecesse os filhos como nunca conheceu. Que repartisse os filhos como talvez nunca o tenha feito. Que tenha passado a dividir teletrabalho e trabalho de pai com a versatilidade de um verdadeiro multifunções. Que tenha mais períodos de trabalho fora de casa para dar apoio às crianças como jamais teve. Que esteja a aprender, muito depressa, a trabalhar enquanto descasca uma banana, barafusta "à esquerda" e tira uma dúvida sobre a matemática "à direita". O que faz com que quem pensava que o pai só era capaz de pensar num coisa de cada vez, que era o campeão dos distraídos e esperava sempre que a mãe mandasse no jogo enquanto ele não se decidia tenha de fazer, com a quarentena, um "upgrade" de pai.

É claro que todos passaremos bem sem mais quarentenas. Mas que o pai mudou em duas quarentenas mais do que terá mudado numa geração, lá isso mudou. E que cozinha, põe a roupa na máquina, limpa e, até, está a aprender a esganiçar-se em voz de barítono, também é verdade. O pai que se cuide! Que direitos adquiridos não se discutem! E perante esta admirável descoberta pandémica, "o papá chegou!", de antigamente, vai ter de mudar. Bom... e se pusermos, depois disto, menos discussões sobre coisas patetas, um charme mais trabalhado, uma aparência melhorzinha e outro empenho no namoro, é bem provável que, ao olharmos para trás, o papel do pai numa família corra o risco de nunca mais voltar a ser igual. E que, com isto tudo, o pai, com a pandemia, tenha levado um twist que nunca ninguém teria, sequer, imaginado.

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