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O que eu mais quero é estar contigo!
Não sabia a falta que me fazias!

As crianças estragam os pais, sim. Porque lhes dão alma. E os comovem. E os obrigam a voltar a escangalharem-se a rir. A pregar sustos e a contar histórias. Tudo aquilo que os faz voltar a ser pessoas, simplesmente. Em vez de “tecnocratas da vida”, como até elas aparecerem talvez grande parte dos pais acabassem por ser. 

As crianças estragam os pais, sim. Porque os ensinam, de novo, a sonhar e a brincar. E a ter uma ilusão de poder que ninguém tem. Quando inventam histórias patetas; só para elas. Quando fazem de conta que são grandes e corajosos e, quase envergonhados, se sentem sempre mais inseguros e mais pequeninos. E quando as mimam com cantigas, sem hesitar (por um segundo, que seja). Porque há uma aura de luz que se solta dos olhos que faz com que até mesmo os pais, quando são desafinados, consigam dizer tudo aquilo que sentem. Só porque voltam a falar com o coração.

As crianças estragam os pais, sim. Quando fazem com que eles lhes espantem os medos. E lhos assustem, até, com a segurança que, desde há muito, talvez ninguém lhes dê. Só porque lhes dizem: “Eu estou aqui!”. E por causa disso as levem a esmiuçar a alma (e todas as traquitanas que a encolhem, por dentro) e assim as deixam sossegadas. Unicamente porque há quem lhas guarde e as encante. E só por isso as olhe para si.

As crianças estragam os pais, sim. Porque ao pé daquilo que elas lhes pedem, tudo o que era urgente deixa de o ser. E a vida pára e volta a soprar, devagarinho. E pára e sopra; só para elas. E não se cansa. E, como bolas de sabão, faz com que elas voem, coloridas, sempre que houver quem, sem que percebam porquê, as leve a voar.  

As crianças estragam os pais, sim. Porque, só por elas, eles voltam a ter o coração ao pé da boca. E resmungam e rezingam. E nada daquilo que digam os parece abalar todo o amor que sentem ter para lhes dar.

As crianças estragam os pais, sim. Porque os levam de volta até à bondade com a qual pareciam ter-se tornado uns trapalhões. E lhes tiram o ar. E tornam o coração delas seu e bem seu. E tudo o que parecia a dormitar ganha vida, de novo, e volta a palpitar.

As crianças estragam os pais, sim. Porque os levam a voltar aos “faz de conta”. E a perderem, de novo, o medo de fecharem os olhos, com força e com vontade. E a voltarem a sentir que talvez seja mesmo verdade que sempre que não se olha ninguém nos vê. E que é por isso que, sobretudo depois delas os estragarem, os pais se descobrem escondidos. Até de si.

As crianças estragam os pais, sim. Porque é por elas que eles voltam a saber a mentir, com delicadeza e com cuidado. Quando lhes falam no Pai Natal, na Fada dos Dentes ou no Anjo da Guarda. E as levam a senti-los com se fizessem parte da família. E as levam a supor que o mundo se compõe de um exército, quase infindável, de pessoas boas e bonitas que lutam, como guerreiros, por tudo aquilo que se passa no nosso coração. E que, só porque as queremos, hão-de viver, para sempre, ao pé de nós.

As crianças estragam os pais, sim. Porque os ensinam, de novo, a sorrir. A sorrir de manhã, quando elas lhes enrolam o cabelo, devagar. A sorrir quando dão nomes esquisitos a tudo o que parecia não ter nem encanto, nem assombro, nem mistério. E a sorrir, só por sorrir. Como se de cada vez que alguém nos mima com um sorriso o mundo ficasse, logo ali, mais fácil e mais simples. E mais perto das mãos, também. E mais junto do céu, claro.

As crianças estragam os pais, sim. Porque os ajudam a imaginar que há quem olhe por eles. E os leva a escutar em si tudo aquilo que eles sentem. E os deixa mexer em tudo, ser abelhudos e, até, sujar-se. E, porque nunca lhes regateiam o colo, os leva a reaprender a chorar. Por tudo e por nada. Só porque sim. Porque há quem os guarde. E os estrague com mimo, seguramente. Como não podia deixar de ser.

As crianças estragam os pais, sim. Porque, de repente, e por causa delas, eles descobrem, outra vez, o gosto de estar apertadinho, quase sem ar, dentro dum abraço. E, dessa forma, tudo aquilo que parecia ser sombrio, opaco ou longínquo, até, ganha vida e voz. E o mundo se transforma num lugar pequeno e simples. Porque há quem se deixe voar só porque ama.

As crianças estragam os pais, sim. E quanto mais os estragam e os desmancham mais eles descobrem o   quanto estavam zangados, sem saber. E porque, entretanto, se estragaram, entendem que, quando há quem nos ame, se perdem os murmúrios e os amuos, os silêncios esquisitos e os salamalecos. E se volta a tudo o que se era. E se aprende a mexer, a sentir e a tocar. E por tudo isso, é claro, se volta a dizer, baixinho: “Aquilo que eu mais quero é estar contigo”.

 

 

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