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Os ansiolíticos “naturais” das crianças
E porque elas lhes deitam "a mão"

"Muito enérgico! Muito sensível! Muito inteligente! ...E com uma personalidade muito forte; muito vincada!" As mães apaixonadas são assim. Quando falam dos filhos, claro. E, sobretudo, quando (em muitos momentos) não sabem o que lhes hão-de fazer...

É verdade que, nessas circunstâncias, há tempos atrás, eu ficava sem jeito sempre que tinha de dizer a uma mãe que todas as crianças saudáveis são enérgicas, inteligentes e sensíveis. E, então em relação aos "vincos" da personalidade, quando lhes dizia que talvez estivéssemos a falar, unicamente, de teimosia, eu ficava de coração um bocadinho apertado, com medo duma reacção mais magoada. Depois, aprendi a perceber que as mães apaixonadas são duma tolerância ilimitada. Às vezes, não fica muito claro se me escutam, como deve ser. Sorriem. Com bondade, é certo! Mas eu fico sempre com a sensação que, lá no fundo, continuam a dizer "Sim, sim!...". E a achar que as suas crianças são, na verdade, as mais enérgicas, as mais sensíveis e as mais inteligentes das crianças (O talvez é meu. De acordo?). E as que têm mais personalidade. Sem talvez, claro.

Mas fiquemo-nos pelas "crianças enérgicas". Estarão - digamos assim - um degrau acima das crianças vivas. Serão (convém esclarecer) mesmo... muito vivas! Ou, se preferirem, um bocadinho agitadotas. Porque é que as crianças são assim? (Aqui passamos para um grau de dificuldade que não é fácil, para mim...) Porque a forma como as mães sentem que elas as levam "ao desespero" só é possível porque elas - as mães! - são adocicadas e almofadadas sempre que se trata de dizer "Não!", com todas as letras. E, sem darem conta, pouco coerentes quando se trata de uniformizar uma regra. Às vezes, o não é sim. Às vezes é nim. Raramente é não. E, com alguma frequência, o não ora surge depois da "11ª" advertência ora surge sem aviso. Quando os nãos das mães acontecem, de forma curta e clara - só de vez em quando e sem uma regra que lhes imprima alguma lógica, aos olhos delas - as crianças saudáveis atrevem-se e abusam. Esticam-lhes a paciência um pouco mais. Há sempre mais um "Sim?!...", enjoado, ou um "Já vou!..." que se repete com enfado. E as mães zurzem, ameaçam, gritam, gesticulam e, no final... as crianças "ganham". Quase sempre.

O que se passa é que a estas crianças lhes faltam as coordenadas que um não coerente e constante sempre lhes traz: uma ideia de compatibilidade entre os ímpetos da sua vivacidade e as regras que os pais entendem que as protegem; um perímetro das coisas que se pode fazer, estruturado em "piloto automático"; e o espaço que sobra, a partir daí, para imaginar e produzir muitas coisas, sem que tenha de estar "partida ao meio" entre aquilo que deseja fazer e aquilo que tenta, por si, compreender que lhe é permitido que faça. Um não curto e claro é um estabilizador de humor! E um ansiolítico, também.

É por isso que muitas crianças que andam a tentar encontrar um perímetro coerente para aquilo que podem fazer - por entre as atitudes bondosas, se bem que encolhidas, dos pais - são, de facto, enérgicas, sensíveis e inteligentes. E sabem o que querem. Fazem escolhas intencionais. E têm, portanto, personalidade. O que se passa é que a ausência de um “Norte” as leva a viverem com um "nervoso miudinho" à flor da pele, que nunca se resolve. E que, para além das birras, de parecerem "estar ligadas à corrente" e de escorregarem, muitas vezes, para o desafio e para a insolência, ainda lhes sobre uma agitação interior que elas tentam sossegar na forma como arranham um braço, arrancam pele dos dedos, roem as unhas ou têm comportamentos repetitivos com as mãos ou pernas. Se as deixarmos prosseguir nesse registo, a seguir, passam a ser obsessivas e meticulosas, e a ritualizar, aos,poucos, muitos dos seus comportamentos. E as coisas ficam mais feiotas. De facto, estes comportamentos acabam por ser uma espécie de ansiolíticos "naturais" a que elas deitam a mão para se sossegarem e tranquilizarem, por falta de uma entidade reguladora lá em casa. O que não é razoável. E que pode, como se compreende, tornar-se muito escorregadio, considerando o seu crescimento.

Portanto, independentemente das qualidades boas que todas as crianças têm - só possíveis porque os pais são, realmente, bons! - não poupe nos nãos. Acredite que o colo e o mimo não estragam. Mas não é razoável que aquilo que eles dão ao seu filho fique comprometido de cada vez que lhes diz não duma forma confusa, intermitente ou, simplesmente, em "português suave".

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