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Os caça-fantasmas dos pais
Às vezes, os pais vivem "presos" aos pais que tiveram

Todos os pais acabam por achar que são melhores pais que os pais que eles tiveram. Não se trata de serem ingratos, claro. Mas de terem a ilusão que são mais atentos, mais cuidadosos e mais protectores que os seus pais terão sido para si. E que, por causa disso, os seus filhos terão mais oportunidades, correrão menos riscos e terão "a obrigação" de irem sempre "mais longe" do que os pais terão ido. Até que, numa manhã como outra qualquer (acontece com todos, não é?) dois filhos se embrulham numa confusão de irmãos, sem importância nenhuma. Um deles começa a chorar porque o outro o aleijou. E vem de dentro de nós uma "fúria" que esbarra no olhar assustado de um dos nossos filhos em relação a nós. E nos olhos dele "vimos" o nosso olhar, 20 ou 30 anos antes, diante dos olhos (que metiam medo) dos nossos pais. E, nesse momento, tudo nos assusta. Começando pelo desconforto de haver "fantasmas" (que jurámos nunca repetir!) que nos perseguem, por dentro. E, como quando nos zangamos, que parecem mandar mais em nós do que pode parecer. Às vezes, os fantasmas da nossa infância "soltam-se". E "passeiam-se" entre nós e os nossos filhos.

A maneira como eles não brincavam connosco. A forma como se zangavam e diziam coisas em que ficávamos a matutar. O seu olhar fechado. O silêncio ensombrado que, nalguns momentos, pareciam ter. A forma como não conversavam, dias a fio. Os desabafos que iam tendo, um em relação ao outro; muitas vezes, entredentes. A forma como discutiam. O modo como amuavam e ficavam agrestes entre si. As imagens. As palavras. Os silêncios. Os olhares. Tudo, da nossa infância, fica guardado em nós. Sem o melhor dos nossos pais nunca seríamos bons pais. Mas sem os "fantasmas" que nos deixaram seríamos melhores.

Os filhos são os "caça-fantasmas" dos pais. Assim nós, de cada vez que surja mais um, não esperemos que se esfume só por si. E o olhemos nos olhos. E o vençamos, claro! Para sermos pais melhores que os bons pais que tivemos. 

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