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Os filhos do covid
a vida em estado de sítio: 26

Há um bocadinho de mim que gostava de vos dizer que, depois da quarentena (e do estado de alarme em que vimos vivendo, desde há dois meses), nada mudou no comportamento dos nossos filhos. Mas mudou!

As mudanças maiores não resultam no "nervoso miudinho" em que eles têm vivido. Nem dos "tiques" ou das "manias" diante dos quais fomos "fechando" os olhos, ao longo das 900 horas em que eles terão estado acordados neste entretanto de "prisão domiciliária". E tem, também, havido - é verdade que sim - mudanças boas. Para muitos de nós - que levávamos as crianças à escola, as íamos buscar entre as 5 e as 6, dávamos banhos e jantares e, depois, das 8 para as 9, conversávamos e contávamos uma história - tanto tempo e tanta dedicação ajudou-nos a conhecer os nossos filhos de outra forma, como nunca os conhecemos. Ajudou a escutá-los e a "lê-los" melhor. E a pensar as entrelinhas das suas palavras.

Mas, ao mesmo tempo, o lado de "relações públicas" que eles tinham - que os fazia procurar o rosto de um estranho só para lhe dizer "Olá!" ou mostrar-lhe o seu brinquedo favorito, para "assaltar" a sua atenção e lhe roubar uma meiguice - está, de forma assustadoramente rápida, a fazê-los parar. Como se um estranho lhes suscitasse, por influência do nosso olhar, sobretudo, medo. E parecessem ter perdido, num solavanco de tempo quase ridículo, o "ar da sua graça" que nos orgulhava pela forma como distribuíam e angariavam sorrisos.

O medo está a roubar o sorriso! E essa herança do covid tem custos graves. Porque os medos não se esfumam com a pressa com que se ganham. Dir-me-ão que, depois disto, tudo voltará a ser como era dantes. De certo modo; mas só em parte. Porque nos esperam longos meses de "não toques, não mexas, não corras e não faças!". E porque eles não vão ter, já de seguida, a vida, os avós, os amigos, o afecto e a liberdade como tinham. Irão, depois disto, dar mais valor às pessoas que fazem parte deles? Seguramente! Mas têm, contra si, a memória de um espectro de perigo que se interpôs entre o seu amor pela vida e o sorriso.

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