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Pais "pica o ponto"
Vamos decretar o fim a esta modalidade de pai?

O pai é um “produto” de primeira necessidade. É ergonómico. Não se parte em pequenas peças. Não é tóxico. Cumpre com todos os requisitos exigíveis para os brinquedos das crianças. Não tem de ter um formato normalizado. Não é excessivamente calórico embora seja doce. Por mais que poupe nas palavras, fala! Não tem uma energia da “duracell” (e até adormece a ver televisão) mas é infatigável enquanto pai.  Quando se estica todo é tão grande que parece que chega ao céu. Pega às cavalitas e atira uma criança ao ar como mais ninguém. Resolve problemas. E, se bem que se faça de desajeitado ou de distraído, “está lá” sempre que é preciso. Faz “voz grossa”! E tem a mania do “precisamos de ter uma conversa!” que põe qualquer monstro das histórias a um canto. Mas chama, desde sempre, a um filho “meu amor” como, dantes, quase nunca acontecia. 

O pai - que eu tenho descrito mais ou menos assim, desde quase sempre - mudou muito nas últimas duas gerações. Tornou-se mais mãe. Passou a estar muitíssimo mais presente na vida dos filhos. Assumiu cuidados com eles e tarefas em casa que quebraram com uma divisão das funções de mãe e de pai que parecia quase biológica. Passou a preparar biberões, a mudar fraldas e a sossegar bebés. Passou a adormecer os filhos e a contar-lhes histórias, a dar-lhes colo e a comover-se, a estar presente nas suas lutas com os trabalhos de casa e a assumir o brincar como uma tarefa a que faz questão de não fugir. Se bem que, um dia, tenhamos de pensar melhor se a sua função de autoridade em relação aos filhos - que dantes, se baseava no medo e na lei da força (e que, hoje, ancora no sentido de justiça e na bondade) - ao transformar-se tanto, não terá introduzido, em complacência com a mãe, um clima muito escorregadio e muito pouco protector para eles diante da autoridade.

Seja como for, um pai é indispensável e é insubstituível. Em qualquer idade. E faz bem ao crescimento duma criança. Em quaisquer circunstâncias. Mesmo quando a mãe e o pai se separam. Daí que eu tenha vindo a aplaudir a “revolução tranquila” em relação a um sexismo estranho que foi vigorando, desde sempre - que considerava a mãe como um “produto de primeira necessidade” e um pai como um “equipamento de opção” - que os tribunais têm vindo a fazer. Mesmo em relação a pais “pouco pais” que, muitas vezes, encontram num divórcio uma “entidade reguladora” para a parentalidade que os transforma e revela como bons pais. E fazendo com que a “guarda conjunta” (que, por vezes, ainda sofre de algum populismo de alguns tribunais, contra e a seu favor) tivesse passado a ser uma discussão banal quando se trata de definir as responsabilidades parentais.

 O que eu não entendo, mesmo, serão os pais (no masculino, claro) que, porque não coabitam com os filhos, lhes telefonam, todos os dias, invariavelmente à mesma hora, com as mesmas duas perguntas de sempre: “como é que foi o dia?” e “como é que correu a escola?”. Serão pais-“pica o ponto”. E, quando é assim, são muito pouco pais. Uma minoria, reconheço, telefona porque há uma mãe que envia uma mensagem “a lembrar” que o pai tem um filho... Mas os pais-“pica o ponto” telefonam porque acham, com inocência, que assim estarão a ser pais a valer. O que é que procuram saber daquilo que os filhos sentem? O que é que entendem daquilo que eles pensam? Admitem, por exemplo, que os filhos tenham dias maus? Perdem-se, em “parvoíces”, quando falam com eles ou perscrutam os seus sonhos? Brincam ou têm, com toda a seriedade que isso merece, “programas de pai”, com os filhos, todas as semanas ? Fazem mais alguma coisa, para além de perguntarem “o que é que se passa?”, quando sentem que eles estão tristes? Sabem o nome dos colegas, do melhor amigo ou, até, do professor de que mais gostam? Se se ficam por este “picar de ponto” com que surpresa é que podem reagir ao “Sim…”, “Pois...” “Hã-hã...”. “Está bem...” e “Então, adeus”, sacramentais, com que os que os filhos lhes respondem? E com que surpresa é que poderão reagir aos telefones “no silêncio”, “sem saldo” e “sem bateria” com que, mais tarde, eles fintam o “picar do ponto” do pai?

Chegados aqui, se me derem licença, era importante “decretarmos” o fim dos pais-“pica o ponto”. Abaixo os pais-“pica o ponto”. De vez. Para sempre. Em nome dos bons pais. Porque os custos que têm - medidos em desamparo - são incalculáveis e muito dificilmente se esquecem e se contornam. Porquê? Porque pai que é pai não “pica o ponto”. Veste, isso sim, com alma e com bondade, “a camisola”!

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