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Passos em frente a olhar para trás
Crianças que não brincam são crianças à procura da infância

As crianças brincam de menos. Brincam, quase sempre, só em casa. Brincam, de preferência, sozinhas. Brincam, cada vez mais, em silêncio e sem desarrumarem. Brincam, sobretudo, nos intervalos do trabalho. Quanto mais o brincar for um proforme da infância mais as crianças, parecendo que brincam, passam pela infância sem brincar.

As crianças brincam pouco na escola. Brincam no quarto de forma acantonada e acanhada. E brincam na rua de maneira espaçada.
As crianças brincam - hoje, ainda mais - de forma asséptica. Não correm, não tagarelam, não cochicham, não cocabicham, não escorregam para as gritarias nem se sujam. Não têm tempos generosos para brincar. E não inventam brinquedos e brincadeiras como elas, só elas, como artesãs em construção, sabem fazer.
As crianças estão a brincar demasiado com a ponta dos dedos e com a cabeça. E pouco, muito pouco, com o corpo todo, com a genica e com a alma.
As crianças têm muito mais brinquedos do que experiências de brincar! Aliás, quantos mais brinquedos parecem ter menos são crianças com a ajuda do brincar.

As crianças brincam pouco com os pais. No sentido deles entrarem nos seus “faz de conta” e de os fazerem luzir e crescer. Ou de os terem esparramados pelo chão. Ou de os terem no seu brincar sem que estejam a olhar para o relógio, para as gelhas da roupa ou para última mensagem que lhes chegou. Ou de ficarem com a sensação, quando se brinca, que nada (para os pais) é mais importante do que, simplesmente, a ousadia de brincar.

As crianças nascem competentes para ser crianças. E somos nós, que ao não lhes darmos tempo para brincar, as roubamos a si próprias. E as afastamos da infância.

Hoje é o Dia Internacional do Brincar. Todos os dias, as crianças perdem muitos bocadinhos de brincar. Todos os anos perdem horas e mais horas de brincar.

Crianças que não brincam são crianças à procura da infância. São adultos rezingões, enfadonhos, tristonhos e sisudos. Que crescem, toda a vida, sem liberdade para crescer. Como se crescer fosse dar passos em frente a olhar para trás.

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