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Podem as mães arrepender-se de ser mães?
Será a maternidade um "equipamento" de base, uma "coisa natural"?

Não é verdade que as mulheres nasçam para ser mães. Por mais que a (imensa) maioria sejam "boas mães". E por muito que essa expressão derive, acho eu, da admiração que todos acabamos por ter pela maternidade. E pela forma tão despojada e tão bondosa das mães se tornarem mães que quase parece que a maternidade é um "equipamento" de base, uma "coisa natural" e, muito poucas vezes, uma aprendizagem que se faz. Com erros. E com remorsos. Onde caiba o direito a ser-se ambivalente. Ou, porventura, a legitimidade de algum arrependimento em relação à maternidade.

Será que todas as mães que já se arrependeram, pelo menos uma vez, de terem sido mães serão más mães? Será que, para todas as mulheres, a maternidade vale, para sempre, inequivocamente a pena? Ou será que - muitas, mesmo - pelo menos, uma vez, nalgum momento, não se terão arrependido de terem sido mães sem que, contudo, isso deixe de fazer delas boas mães? Ser-se mulher parece ser, para muitos, sinónimo de instinto maternal. E, por consequência, de amor materno. Tudo sem direito a arrependimento! Mas nada, dentro duma mãe, será assim. Simples. Fácil. E sem muitos momentos de culpabilidade.

Passear ao fim de semana, num dia de sol, nem sempre é fácil. Talvez quando mais a natureza nos brinda com o maravilhoso se repare mais facilmente que há mesmo muitos casais que parecem ter uma relação muito sombria e cinzenta. E que, a não ser quando se adequam aos seus filhos, não têm nem gestos de cumplicidade nem atitudes cuidadosas e com carinho. Será que quando observamos esses casais, quer um quer outro, não se poderão ter já arrependido, em silêncio e com surpresa, de terem tido filhos, não tanto por eles (que ambos amarão intensamente) mas por tudo aquilo que isso lhes tirou?

É verdade que as mães, como os pais, reconhecem que os filhos levam a que "deixem de ter vida". Que é o mesmo que dizer que o namoro parece ser severamente atropelado pelas crianças. Mas será que, ainda assim, se sentem legitimadas para se sentirem arrependidas? Ou, por exemplo, quando se sentem magoadas, violentamente, por um filho que as ignora, ou quando se sentem decepcionadíssimas com ele, ou quando ele faz questão de as maltratar, de forma inequívoca, quase todos os dias? É claro, para mim, que, neste "pacote" das muitas razões que podem gerar, num flash, uma experiência de arrependimento, não estão as fúrias maternas, muito próximas da exaustão, que fazem com que as mães desabafem que: "Só me apetece atirá-los pela janela" ou quando reclamam pela necessidade de "Tirarem férias de mãe". Um desabafo furioso de mãe ou um sentimento, perplexo e profundo, de (algum) arrependimento em relação à maternidade são coisas muito diferentes.

Há muitas mulheres que planeiam a gravidez, é verdade, mas há muitas que são surpreendidas por ela. Não quer dizer que estas últimas tenham mais probabilidades de se arrependerem. Mas é legítimo que nos perguntemos se, a pretexto duma relação conjugal que tenha perdido todo o sentido para elas (ou na sequência de um imenso sofrimento que lhes tenha sido trazido por um filho, algures, alguma vez na sua vida), se não é compreensível que se tenham sentido arrependidas de terem sido mães. Será que apesar da bondade das mães, da sua capacidade de sofrimento e da sua infinita paciência não é legítimo imaginar que sim? E que isso não tenha quase nada a ver com o facto de não amarem os filhos mas com o reconhecimento de muito daquilo que possam ter abdicado em função deles? Como vida, a ideia duma relação amorosa adulta com o pai deles, futuro, etc.?

O arrependimento é, aos olhos de muitos, uma experiência de reconhecimento dum fracasso, dum erro. Mas, vendo bem, sem arrependimento não há redenção. A ideia de que o progresso é incompatível com o arrependimento é estranha. Porque. na verdade, sem arrependimento o progresso não existe. O arrependimento não é só o reconhecimento duma falha. É aquilo que é indispensável para que ela se ultrapasse. Se o arrependimento é uma forma de identificar os remorsos e de reconhecer a vergonha, então a vaidade representa muitos arrependimentos escondidos. Ora, as mães não são assim tão dadas à vaidade quanto isso. Portanto, talvez a forma como conseguem ser boas mães não seja tão estranha aos seus arrependimentos. E isso, mais do que parece, talvez as ajude (muito) a ser boas mães. Talvez só mesmo quem se arrependa se chegue mais ao sagrado.

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