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Quando for grande, eu quero ser pai!
Como definir o que é ser pai em "duas palavras"?

Nunca soube muito bem como se pode definir, em duas palavras, O pai. Começa pela dificuldade de definir seja o que for “em duas palavras”. Mas, adiante. Sei - mas isso talvez seja uma escapatória - que, há muito tempo, quando um dos meus filhos me disse que, quando fosse grande, queria ser pai, não fiquei orgulhoso; eu fiquei encolhido. Como se tivesse recebido um presente que eu desejava tanto - mas tanto, mesmo - que, por isso mesmo, acho que nunca tinha tido nem sequer coragem para o desejar. E - como fazem todos os pais, quando se comovem, e se sentem divididos entre o desejo de chorar, só porque ficam com um nó na garganta que não os deixa nem dizer “Obrigado!”, e aquela ideia pateta que nos leva a supor que se não fizermos de “rei leão”, até nessas circunstâncias, ninguém nos leva sério - eu passei-lhe a mão na cabeça, fiz um esgar meio parvo (que só podia ser condescendente) e chorei para dentro, baixinho (que, garanto-vos, um pai faz melhor que ninguém). Ele tinha definido - sem querer, suponho eu - o que é ser pai. Em “duas palavras”.

Daquela vez, eu interpretei esse comentário como aquilo que de mais lisongeante se pode dizer a um pai. Do género: “Como é que eu me imagino, quando for grande? Pai, claro! Isto é, parecido contigo. Pode ser?… (os filhos perguntam sempre se os deixamos concretizar os seus desejos mesmo quando o seu desejo seja parecerem-se connosco)” (Ena!!) Não vem ao caso, neste momento, mas eu disse que sim.  Que ele estava autorizado a ter esse desejo. Só não lhe disse o quanto esse desejo se casava com o meu. 

Cada pai dá um jeitinho muito “só seu” aquilo com que um filho decide mimá-lo, não é? Na verdade, eu podia estar a agradecer por uma mimalhice daquelas, que se guardam para a vida toda, e o meu filho a imaginar, somente, que ser um pai significa poder deitar-me depois das dez. Não precisar de pedir autorização para ir à rua. Não ter hora de entrada quando se sai à noite. Ou estar autorizado a algumas acrobacias nas regras alimentares só porque se se vai variando de regimes dietéticos; e se é pai, claro. 

Mas eu não quero saber. Se me perguntarem como é que se pode definir, em duas palavras, a função de um pai, eu vou responder: “O melhor que consigo dizer, “em duas palavras”, acerca d’ “O pai”? “Não sei! Mas, mesmo assim, quando for grande, eu quero ser pai!” Mas não és já? (Imagino eu, que me perguntem...) “Sim. Provavelmente...” Mas não; na verdade, nunca se é pai. A vida, se não regatearmos as oportunidades que ela nos dá, faz com que, hoje, sejamos pai, um bocadinho. E, depois de amanhã, se a formos escutando, fará com que sejamos pai, um pouco mais. O que é que nos define, então, como pai, em duas palavras? Não querermos - nunca; e, sobretudo, para sempre - deixar de o ser.

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