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Quem pôs areia no meu jornal?
Há uma linha que separa o pai antes das férias e o pai depois das férias

Há uma linha que separa o pai antes das férias e o pai durante as férias: o jornal com areia. Tudo começa assim:

Uma pessoa respira fundo. Vem, até, mais cedo para a praia com a desculpa de encontrar um toldo para todos. Foge aos pequenos almoços, às tarefas de vestir as crianças, e de encontrar as toalhas e os baldes. Chega, toma um café e admira o mar. Pede que lhe troquem a espreguiçadeira por uma cadeira em que se sente, para que possa ler. Espalha o creme pela pele e fica todo reluzente. Pega nos óculos. Estende - com uma sacudidela, ao de leve - o jornal, e folheia-o, detendo-se nas letras gordas. E quando está quase quase a reconhecer que a vida é bela, as notícias esvoaçam e caem (e, perigo dos contágios, o matutino enche-se de areia). Ao sacudirem-se os grãos, as folhas soltam-se, desencontram-se umas das outras e nunca mais o jornal fica arranjadinho e aprumado. Depois de muita paciência a fazer coincidir as páginas umas com as outras, mergulha-se, finalmente. Na leitura, claro! Entretanto, ao fim das primeiras “braçadas”, chegam as crianças. Pousa-se o jornal; com critério. Distribuem-se beijos e sorrisos. E, a partir daí, as férias seguem para bingo com o pai a repetir:“Quem pôs areia no meu jornal?”. A areia - esclareça-se - nunca se dá como culpada. E as crianças, para que conste, também não.

As férias do pai têm uma agenda muito sua. Sair de casa, antes de todos, para ir comprar o pão. Dar um salto ao supermercado, se for preciso. Ver as mensagens, telefonar a um amigo e perder-se com as horas. Resolver pequenos assuntos de trabalho nos momentos mais impróprios. Chegar à praia “cedinho” para ler o jornal; como tem de ser. Fazer poços na areia, apanhar conchas e jogar à bola. Ajudar com o almoço. Passar pelas “brasas”, logo a seguir. Telefonar para o restaurante, quando é preciso marcar a hora do jantar. Pôr a roupa no estendal. Preparar o churrasco. Sentar-se, por “dois minutinhos”, depois das crianças estarem a descansar. Ser interrompido, diversas vezes, pelos filhos mais velhos, com a frase-top: “É na boa ir tomar café?…”, acompanhada por um estremunhado:”Precisas de dinheiro?…”(com as notas de 20 a capitularem aos pares). Ir dormitando no sofá até se arrastar para a cama, quando todos já se deitaram. Levantar-se ainda nem o dia começou lá por casa. E andar esbaforido, de cansaço, como se, todos os dias, trabalhasse muitas horas e andasse à toa no trânsito, com os nervos em fanicos. Não fosse o jornal ser “um momento só seu” e... "As férias, no próximo ano, têm de ser repensadas” transformava-se num hit. Assim a areia o ajude.

Quem disse que lá porque o pai não escreve em blogs de mães a vida de um pai, durante as férias, é só doçuras? Quem acha que, quando regressa de férias, o pai vem zen e bronzeado, e não está com o stress próprio das semanas estafantes e prontinho para ir de férias, outra vez? E quem acredita que, talvez porque só gaste 7000 palavras por dia (enquanto a mãe desbarata 20000), também o pai não tenha vontade de tirar “férias de pai” e não queira pacotes de “5 minutos” só para si (nem que seja para ler as notícias)? É preciso ter calma! É verdade que o pai faz de distraído vezes demais e reclama pelo direito à preguiça quando não devia. Mas férias são férias! Até porque, durante o resto do tempo, o pai não abandona o seu posto. O pai escuta, observa e preocupa-se. O pai comove-se e sente. Peca nas férias; é verdade. Mas, por acaso, pai que é pai precisa de ser perfeito para ser bom pai?...

 

*crónica publicada na secção P2, do jornal Público, de 21 de Agosto de 2018. Link na imagem

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