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"Querida mãe, querido pai, então que tal?..."
Há dias difíceis na vida de um pai

1. Embora pareçam pessoas (num formato, levemente, mais pequeno... e mais ágil) as crianças, pela sofisticação com que vêm equipadas, necessitam de cuidados mais ou menos delicados, sempre que se lida com elas. Uma criança nunca se deve despertar de forma súbita, abrindo-se o estore do quarto duma só vez... (mesmo que se diga, sublinhando cada sílaba, num tom açucarado: “São horas!...”). Entre segunda e sexta-feira esse procedimento – muito perigoso! – faz com ela reaja de forma maldisposta, sendo necessário zangarmo-nos à italiana, logo pela manhã, ao mesmo tempo que ela se remete a uma greve de zelo, mais ou menos temível (já que recusa o leite, não se veste e, pior, pragueja, com frequência, contra tudo o que se mexe). Geralmente, como a lentidão com que sai de casa é inversamente proporcional à agitação com que os pais pululam, em seu redor, convém que uma criança não seja demasiado agitada, até chegar à porta da rua, sob pena dela guardar o melhor dos seus vagares só para nós, enquanto amaldiçoa o caminho para a escola, as pessoas que se cruzam com o carro dos pais, as notícias (que, timidamente, só sussurram) e, até, comentários enternecedores como, por exemplo: “Quem é a menina linda da mãe, quem é?...”. Como, na melhor das hipóteses, terá à sua espera um olhar fulminante do género “Já te calavas!...”, faça de conta que, dentro do carro, estão na primavera e que os melros cantam, porque – palavra de amigo – receio que precise de ter um coração sem arritmias muito acentuadas para a terceira etapa dum dia... normal, de semana. Num dia como esse, em que um maldito karma toma conta do mundo e uma nuvem negra acompanha o seu rebento para onde quer que ele vá, convém que, ao chegar à escola, nenhum dos pais se precipite, solícito, em direção à porta do carro, abrindo-a, sorridente, já de mochila na mão. Segundo dizem, esse tom macio e, levemente, adequado torna robusta uma virose infantil, mais ou menos misteriosa, cujo único sintoma que tem sido descrito é um “não vou, não quero e não faço!”, mais temível que um febrão, que se faz acompanhar por uma espécie de convulsões, em que as crianças têm gestos extensos e gritos estridentes, próprios de quem está... possuído. Contando que uma criança, num dia desses, saia do carro, de seguida, os pais devem despedir-se dela, com um beijo firme, na cabeça, o mais depressa que puderem, dando, logo após, um pulo, de volta para o carro. Se esse procedimento for dado ao fracasso (como é de esperar), sugere-se uma mão – determinada – segurando-a no ombro, enquanto, de ar enxofrado, ela passa – corredores dentro – pelos pais dos amigos, pelos amigos, pelos professores e por aquelas auxiliares educativas com quem foi travando amizades, como se lhes dissesse: “Prazer em não a conhecer! E a si! E a si, também.” Enquanto isso se dá, não faça, por favor, o sorriso mais amarelo que consegue (como quem diz, num esgar: “Embora não pareça, a minha criança, habitualmente, não é assim!”). Regra geral, um lado engonhante desses paga-se com uma birra, cheia de efeitos especiais, mal se entra na sala, que dá origem a um combate do género: “Deixe-a ficar, que ela já se cala!” versus “Pronto, já passou... A mãe, agora, vai dar-te um beijinho, tu vais-te acalmar e logo – prometo! – vamos comer um gelado” cujo desfecho – se tudo correr como se espera – se traduz num derrota dos pais, por KO técnico, a meio do primeiro round. Já com a frescura de quem deixa um filho a debater-se nas mãos da professora (que, entre o vermelho de raiva e a candura – que todos os pais, secretamente, lhe parecem exigir – pergunta a Deus que mal terá feito para começar um dia de sol com mais uma acção de preservação da “vida selvagem”) está, finalmente, em condições de tomar um café prolongado enquanto lê o jornal. E, embora, regra geral, uma boa notícia nunca seja... notícia, nesse dia, enquanto uma dor de cabeça parece cirandar à sua volta, é natural que você desconfie que, ao contrário dos últimos dias, os conflitos que há no mundo ou a corrupção, por exemplo, sejam – só pode ser... – brincadeiras de crianças. Aí, já mais descansada, é natural que respire bem fundo e que, de sorriso meigo, puxe pelo telemóvel e, delicadamente, escreva uma mensagem, onde cada movimento será ofegante e requintado. Mais ou menos assim: “Querido, como tenho medo de me atrasar, podes ir buscar a nossa filha, logo à tarde?” (Quem é que resiste a um pedido que começa por “Querido...”, pensa você?...) E, então sim, está pronta para começar o dia...

2. Quem disse que as crianças são o melhor do mundo não estava, certamente, enganado. Para que é que elas servem? (Foi isso que perguntou?...) Uma criança serve para redescobrirmos o encantamento, a transparência, o riso até às lágrimas e as histórias que se acotovelam na nossa língua. Serve para brincarmos e corrermos pela casa. Serve para termos uma desculpa, sempre que chegamos muito atrasados a um sítio que não nos interessa. Serve para descobrir que há nuvens que se parecem com a tromba de um elefante. Serve para chorarmos quando revemos o Bambi. Serve para adormecermos abraçados a ela, no sofá. E serve para descobrir que o melhor do mundo é sermos (só nós e mais ninguém!) o melhor do seu mundo. Que ao pé de tudo isso haja um dia (ou outro) em que o karma parece apostado em nos contrariar, o que é interessa? Afinal, há sempre um telemóvel à espera de uma mensagem que, podendo não começar com “Querido”, acaba sempre, no mínimo, com: “Já te disse como gosto de ti?” São tão pouco entediantes os dias de uma mãe! E ser-se pai é sempre tão criativo e imprevisível!... Afinal, no fim de um dia normal de semana, depois de deitarmos um filho (e de o vermos a voltar, de novo, a ser anjo) sentamo-nos, suspiramos como quem, finalmente, está pronto para descansar e, sem percebermos porquê, enquanto lutamos contra o sono, só nos vem à memória um refrão mais ou menos gasto: “Querida mãe, querido pai, então que tal?...”. (Suspire! Outra vez, ainda, por favor!) Quem disse que amanhã não é um novo dia?

 

 

*Texto em repositório com edição especial para a sua versão digital

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