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Serão os filhos “nossos filhos”, para sempre?
Mesmo quando aquilo que são não "casa" connosco?

Os pais acham que têm filhos. Eu acho que “somos” os filhos. Isto é, aquilo em que eles se tornam contribui para aquilo que nós somos. A questão que se coloca é se seremos pais para sempre. Ou seja, se aquilo em que nos nossos filhos se tornam nos leva a reconhecê-los, para sempre, como nossos filhos. Se preferirem, por outras palavras: serão os nossos filhos, depois de crescidos, nossos, para sempre?

Como é possível convivermos com aspectos dos nossos filhos que nunca aceitaríamos nos nossos amigos sem que, ainda assim, deixemos de gostar deles? Como é possível reconhecermo-nos neles quando estranhamos as suas escolhas e, por mais que seja de aplaudir a sua autonomia, não nos revemos, de todo, nelas? Como é possível que os nossos filhos sejam nossos, para sempre, se muitas d’ “as suas coisas” não casam connosco? E como é possível, mais, se a forma como reagem merecia, por vezes, um "açoite" e quando - se, a medo, quando os repreendemos ou educamos, vem até nós o seu enfado em mais um "Lá estás tu!…" - no fim das contas, quem se sente "açoitado" somos nós?

Os nossos filhos não são nossos, para sempre, se aquilo que eles são não merece fazer parte de nós. E não sendo parte do que somos, tornam-nos estranhos em nós. Que é o rasto que deixam todas as nossas desistências. Antes, ainda, de reconhecermos que desistimos.

Mas seremos nós pais para sempre? Tecnicamente, sim. Convictamente, nem por isso. Basta que os nossos filhos não se reconheçam em nós. Não nos admirem nem respeitem aquilo em que nos tornámos. Tal como acontece connosco, também os filhos “são” os pais.

Trágico é que os filhos não se reconheçam nos pais. E que os pais não se reconheçam nos filhos. Se for assim, desistimos uns dos outros. O que, feitas as contas, é desistir de estar vivo. Ainda antes de morrer.

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