Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso website. Ao navegar neste website está a concordar com a nossa política de cookies.
Traquinas, reguilas e rebeldes
Crianças bem educadas e crianças "na linha" não são a mesma coisa

Há uma diferença - grande! - entre nos esganiçarmos, de vez em quando. Vivermos, habitualmente, "aos berros". Ou, em relação a uma malandrice de um dos nossos filhos, "dar um berro". É claro que esses nossos desempenhos vocais não podem servir como unidade de medida. Mas - por mais que a forma como insistimos em levantar a voz não os torne nem mais serenos nem mais comedidos - o “som das regras” ajuda a que os nossos filhos percebam melhor o modo como que lhes servimos de farol. "Abrirmos para vermelho", quando "tem que ser", funciona melhor do que se "passarmos a vida" num "amarelo intermitente", que nunca se resolve. Ou sempre "no vermelho" claro.

Eu acho que todos procuramos que os nossos filhos sejam, ao mesmo tempo, serenos e atentos. Ternos e mimentos. Mas vivos e traquinas. Reguilas. Mesmo, "malandros". Com o seu "quanto baste" de "mau feitio". De "nariz empinado". Ou, simplesmente, de rebeldia. Talvez estas características todas se resumam a que eles sejam, simplesmente, "bem educados". Por mais que essa expressão, por vezes, "arranhe" a sensibilidade de alguns pais.

O que é que isso quererá, afinal, dizer? Que acabamos todos por querer que os nossos filhos sejam uns vivaços. Que transbordem luz. Que sejam acutilantes. E audazes. Que não esmoreçam à primeira contrariedade. Mas que aceitem, com a naturalidade de quem nos reconhece essa função de farol, que nós existimos, também, para sinalizarmos as regras. Sempre que eles se estão a aventurar "para fora de pé"! Ou seja, é a forma como somos claros, coerentes e constantes nos nossos "nãos" que faz com que passem a ter uma espécie de bússola, dentro deles, que os orienta em quaisquer circunstâncias. Que faz com que respeitem. Que escutem. Que interpelem. Que reajam. Que protestem. Mas que percebam que "não mandam". Sobretudo a partir da "linha" que definimos como adequada para eles.

Crianças bem educadas e crianças "na linha" não são a mesma coisa. Crianças educadas percebem que os pais, quando se zangam, "assustam". Parecem um trovão. Mas, logo a seguir, voltam ao seu céu azul, do costume. Crianças "na linha" vivem, o tempo todo, debaixo do medo. Crianças agitadotas reproduzem o "amarelo" em que nos sentem e tornam-se tão agitadas como nós. As crianças "na linha" encolhem-se. Anulam-se. E vivem numa espécie de pânico, permanente. Não se portam mal. Mas "não existem", vezes demais. E isso é trágico. "Crianças agitadotas" correm o risco de ser desagradáveis. "Fervem" por "quase nada". Tão depressa parecem demasiado assustadas como insolentes e, até, desafiadoras. Crianças bem educadas são traquinas, reguilas e rebeldes. Mas param quando nós achamos que devem parar. Portanto, aquela ideia que pressupõe que quanto mais nos estamos "pouco a preocupar" para os ambientes e para as pessoas para quem falamos, e para os modos e para as palavras que utilizamos mais "auto-estima" nós temos é uma ideia pateta. Respeitar não é calar. Mas não é, seguramente, destratar. Não reconhecer nem o bom senso das regras nem a gratidão pela sabedoria não é uma afirmação pessoal, nem um tique "muito líder" de algumas crianças. É achar que os semáforos são uma maçada. O que, valha a verdade, não protege os nossos filhos. Antes os torna desagradáveis.

A boa educação não é, portanto, uma disciplina militar. Não é uma sonsice aprendida. Mas também não é nem insolência, nem desafio. Nem, sequer, falta de respeito. Dir-me-ão: "Mas não há dias que eles nos fogem das mãos e são uns mal-educados?" Claro que sim. Por isso é que são saudáveis! Crianças bem educadas são tanto relógios suíços como nós. Precisam de se "esticar", de vez em quando, mais um bocadinho para recordarem, mais uma vez, que somos capazes de fazer de fazer de farol.

subscreva