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A gravidez do pai
Tantas vezes o pai é vivido como um "estranho"

É verdade que uma gravidez se passa, sobretudo, no útero. Mas não é menos verdade que ela se dá na cabeça. E aí, uma gravidez tanto pode ter quatro ou cinco meses como alguns anos. Seja como for, acaba por ser no casamento entre a gravidez na mãe e da gravidez no pai que um bebé encontra espaço para nascer. Muito tempo antes de nascer. Duma forma obstétrica, claro.
Mas, regra geral, o pai é vivido como um estranho - às vezes, quase como intruso - na gravidez. Pelas equipas obstétricas e - estranhe-se - por vezes, pela própria mãe. Apesar de todos reconhecermos o papel do pai na gravidez, poucos terão tentado perceber se o pai engravida. Quando engravida. E com que sobressaltos engravida. Foi nesse sentido que o BabyLab da Universidade de Coimbra organizou um primeiro estudo, aberto a pais, no sentido de aprofundar a compreensão de tudo aquilo que se passa (mais ou menos em segredo) dentro do pai, a propósito da gravidez e do bebé. Foi aplicado um questionário de caracterização sócio-demográfica, um questionário obstétrico e um questionário sobre o envolvimento do pai na gravidez e no parto. O estudo foi de natureza exploratória. E contou com 90 pais (entre os 21 e os 63 anos) com bebés até aos 12 meses de idade.
Os primeiros dados deste estudo permitem-nos afirmar que o pai engravida, sim. E que o processo psicológico de gravidez no homem - a forma como ele acompanha as transformações corporais da mãe do bebé, o modo como a gravidez traz transformações psicológicas na mãe e no pai do bebé ou o jeito como se constrói dentro de ambos o próprio bebé - não é tão diferente, em complexidade, daquele que se dá dentro de uma mulher, por mais que se caracterize por singularidades que, naturalmente, os separam.
Os dados, duma forma surpreendente, demonstraram-nos, por exemplo, que os pais de um segundo filho manifestam mais ligação ao bebé que os pais de um primeiro filho. Os pais com mais de 30 anos evidenciam mais ligação ao bebé que os pais na casa dos vintes. Os pais que nunca passaram por uma experiência anterior de interrupção da gravidez têm uma ligação mais intensa ao bebé que os pais que passaram por experiências de interrupção da gravidez. Os pais que não planearam a gravidez têm menos ligação ao bebé. E os pais que estiveram em menos consultas de acompanhamento da gravidez têm menos ligação ao bebé. O denominador comum deste trabalho foi a ligação ao bebé, medida por uma escala adaptada para o efeito. Sabíamos, de antemão, o pai pode ser um factor ansiolítico e anti-depressivo ao longo da gravidez. Que pode ser um factor adjuvante na diminuição do tempo do trabalho de parto e interferir no menor recurso a analgesia durante o parto. Mas dados tão simples como estes ajudaram-nos a perceber que a gravidez do pai acaba por estar a ser demasiado ignorada: nas transformações que traz, naquilo que exige e nos factores anteriores que interferem nela. E talvez dependa da forma como ela começar a ser considerada pelos serviços de saúde que a gravidez do pai e a gravidez se compatibilizem para bem de ambos e do próprio bebé.

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