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A morte no meio de nós
Balanço de vida

Há quatro momentos em que fazemos balanços de vida: quando a adolescência nos desmancha o corpo e a cabeça; quando nos apaixonamos duma forma que sentimos única e singular; quando somos pais pela primeira vez; e quando percebemos que estamos doentes ou que podemos morrer. Nos meus dias maus, eu acho que devia ser obrigatório ter-se uma "crise de adolescência", todos os anos. Que é uma forma de dizer, por outras palavras, que era bom se, com todas as dores que isso nos traz, nos puséssemos em dúvida, nos perguntássemos quem somos e por onde queremos ir e, sobretudo, com quem contamos e o que nos falta. Isto é, essa minha "vontade" de existirem mais "crises de adolescência" é uma forma de dizer, por outras palavras, que é esquisito sermos tão competentes para pensar e tão desconhecidos de nós próprios. No fundo, é sempre melhor pensarmos porque sentimos vontade de pensar do que pensarmos porque a vida nos "obriga" a pensar. Porque quando ela nos puxa para um balanço tudo aquilo de que fomos fugindo de pensar nos cai, de supetão, sobre a cabeça e o que parecia arrumado ou resolvido desaba sobre nós e ficamos pequeninos e assustados. "Com a criança nos braços". Como se tudo o que é importante estivesse "ali". Mas, ao mesmo tempo, nada estivesse no lugar.

É claro, que quando percebemos que estamos a viver um amor único e inimitável, que a sua falta nos faz temer que se "morra de amor". E que, nalguns momentos, isso nos leve a "querer" morrer. Mas isso é uma espécie de enamoramento pela morte. Que nos ameaça, sim. Mas não nos atormenta. É uma forma "egoísta" de olhar a morte. Será mais isso.

Mas quando somos pais, e um filho espera que sejamos Deus, a morte interpõe-se entre nós e a vida. E isso é um sentimento estranho que nos vira do avesso. Passamos a ter medo de andar de avião, não porque temamos que ele caia; mas porque não nos sentimos autorizados a faltar a quem espera que sejamos, sobretudo, eternos. E passamos a planear os cuidados de saúde porque não podemos morrer. E a tratar de sermos cuidadosos, quando conduzimos. É uma forma altruísta de viver a morte porque não estamos autorizados a morrer. Essa morte, que fomos “esquecendo” à medida que nos sentíamos amados, surge, de repente, e "volta". Para ficar.

Porque é que a morte, no meio de nós, parece roubar-nos ao erotismo e à paixão? Porque nem sempre sentimos, em relação à pessoa que amamos, que a morte, no meio de nós (que um filho nos obriga a perceber!) que ela nos ame de forma a que isso nos ajude a "esquecê-la", quase todos os dias. E nos dê os bocadinhos de eternidade que alimente a veleidade de sermos eternos enquanto isso nos apeteça.

Talvez seja quando percebemos a eternidade que percebemos a morte. E talvez, só aí, fique claro que o amor é o antídoto da morte. E que sem ele, mesmo quando não podemos, morremos de amor. Sem querer. E sem poder! Devagarinho.

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