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A sexualidade depois da gravidez
Quando tudo parece gravitar à volta de um bebé...

A sexualidade na gravidez raramente merece a abordagem que devia merecer, quer nos centros de saúde como nas maternidades. Se, às vezes, isso é quase trágico, como se os casais não tivessem o direito a conversar acerca das questões que ela lhes traz senão “em surdina”, por vezes, chega até a ser sensato, tais os comentários que, a propósito dela não deixam de lhes fazer. Mas se há aspectos que, quer nos serviços de saúde como nos próprios casais, parecem transformar-se num enorme “elefante” no meio da sala, a sexualidade depois da gravidez será o maior deles todos.

 Uma gravidez pode introduzir uma fractura na sexualidade dum casal. Porque um bebé é esgotante. Porque exige à mãe um esforço tremendo, por muito, muito tempo. E porque requer da sua parte um equilíbrio psíquico à prova dos seus ritmos e dos seus choros que faz com que todas as mães saudáveis se sintam, vezes demais para o seu gosto, profundamente, “desequilibradas”. Mas um bebé consome, também, por aquilo que exige e por tudo o que dá, todos os bocadinhos da atenção de uma mãe. E impõe-se com tamanho protagonismo na sua vida de todos os dias que tudo o resto, pai do bebé incluído, são remetidos para um plano muito secundário, por muito tempo. E, por mais que algumas pessoas que exibem nas revistas cor de rosa o seu corpo após um bebé o pareçam contradizer, o corpo de uma mulher leva um profundo safanão depois duma gravidez, passando a ser, contra a sua vontade, motivo de alguma vergonha. E, depois, “está ali” sempre o bebé, como um “intrometido” acidental que - unicamente, pela sua presença ou pela forma como se manifesta com fome, com dor, com ira ou com lamúria - “manda” na vida dos pais, a toda a hora e em todos os momentos.

Que energia, que paixão ou que erotismo sobra, entretanto, em todos os gestos da mãe? Quase nada. Que desejo resiste, mais ou menos incólume, em relação ao seu parceiro, por entre este “tornado”? Mais ou menos nenhum. E, em relação a tudo o que está a viver, em silêncio e de forma incomodada, e em relação às omissões e aos falhanços do pai do bebé, no apoio que sente que ele não lhe dá e do carinho que parece estar em “modo de poupança”? Quantos “comboios” de “pequenos-nada” de ressentimentos perante aquilo que ela sente se acumulam, todos os dias, que a levam a sentir com que o seu coração pareça, quase sempre, “encolhido”, para sua surpresa? Muitos, mesmo! E quantas vezes o dia e a noite, os dias da semana e os sábados e os domingos se distinguem naquilo que dão e em tudo o que “exigem”? Nenhuma. E em que momentos, no meio deste “tráfego” sem-fim de exigências, a sexualidade terá uma nesga de espaço para se manifestar com uma chama imensa, nem que seja por um bocadinho? Talvez nenhuns.

Ora, não se trata, num contexto destes, de fazer dum homem uma espécie de “australopithecus” a borbulhar em impulsos. E, muito menos, de corroborar a ideia - infelicíssima! - de que os homens terão com a sexualidade uma intenção, apressadamente, orgástica, muito pouco dada a gestos românticos e amorosos, e à ternura. Como se não tivessem coração, lágrimas com cloreto de sódio ou lhes fosse mais ou menos indiferente a mulher com a qual se sentem felizes. E não se trata, ainda, de presumir que um impacto dum bebé nas suas vidas seja da ordem da insignificância. Ou que sejam insensíveis a tudo aquilo que ele exige a uma mãe. Pelo contrário. Trata-se de reconhecer que a bondade materna da sua companheira ou a luz (isso mesmo: a luz!) de beleza que o seu olhar irradia, em tantos momentos, têm um tal impacto no seu coração que desejá-la não se trata dum impulso mas, unicamente, dum gesto - reflectido - de amor. E, depois, uma gravidez traz consigo não um, nem dois, nem três meses (mas muitos mais) sem um gesto erótico, um sinal de interesse ou sem um envolvimento, mínimo que seja, com uma pequena aragem de sexualidade. E sobram sobre a relação de casal (mal seria que assim não fosse) as reacções mais agrestes, mais inflamadas e mais intempestivas duma mãe - que resultam do esforço e da exaustão, de todos os dias, duma mulher - que, ao mesmo tempo, não a transformam na pessoa mais amável e mais amorosa do universo. E, depois, a forma rudimentar, atrapalhada e engonhada com que a maioria dos homens fala, regra geral, das suas emoções e dos seus sentimentos, não ajuda. E, por maioria de razão, parece haver, nestas alturas, um “brio combalido de macho” que enviesa a inteligência dum homem, parecendo prevalecer sobre tudo aquilo que se pensa o desconforto de quem se sente alvo de desinteresse, abandonado ou destronado de protagonismo pelo amor duma mulher. E etc. 

Como é que, então, duas pessoas que vivem, em silêncio um para o outro, todo este turbilhão de sentimentos e de experiências tão contraditórias se sentirão capazes de conversar (às vezes, unicamente, de conversar!) acerca de tudo aquilo que as parece divorciar, aos bocadinhos, quase todos os dias, ao mesmo tempo que um bebé, “regra geral”, os liga? Nunca. Ou quase nunca. Como é que, quando os espaços de encontro perdem a intimidade de quem se olha nos olhos ou os almoços “românticos” se fazem sob a “tirania” do toque iminente do telemóvel, haverá clareiras que sirvam para “limpar” o pó que um bebé trouxe com ele à relação dos pais? Não há. É provável que, num contexto assim, a sexualidade dum casal seja gravemente “atropelada” e, com ela, dependendo do grau de maturidade com que vivam tantas transformações em tão pouco tempo, uma relação amorosa seja remetida para uma “amizade colorida” ou para uma “relação fraterna”, trazendo consigo, muitas vezes, fracturas irreparáveis num casal? É muito provável! E pode acontecer que passe a existir um “antes” e um “depois” do bebé na sexualidade dum casal, sendo (habitualmente) o “depois” pior e mais funcional que o “antes”? Pode. Vezes demais. 

Pode um grande amor sobreviver a um bebé? Se for um grande amor? Pode, claro. E pode crescer, até. Por mais que a sexualidade do casal seja - sempre! - “atropelada”! Mas acontece que, tragicamente, muitas relações de casal não são um grande amor. E, sendo assim, talvez a sexualidade depois da gravidez seja a “suspeita” do “desmoronar”’ duma relação que, muito antes de um bebé, e em surdina, ia “suportando” uma relação. Que, com o conhecimento dos dois pais, ia adoecendo aos bocadinhos.

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