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A solidão na primeira gravidez
"Estado interessante" ou "solidão assistida"?

Que a gravidez nem sempre é um estado interessante já todos sabíamos. Mas que a primeira gravidez pode trazer consigo experiências de solidão significativas acabou por ser uma realidade mais surpreendente para nós do que, de alguma forma, já imaginávamos. 

Num trabalho recente* do BabyLab da Universidade de Coimbra que eu orientei, fomos à procura das experiências de solidão que a primeira gravidez pode trazer. Entrevistámos 777 mulheres, grávidas ou que tenham dado à luz há menos de seis meses, com idades que variam entre os 18 e os 41 anos. Grande parte delas casadas ou em união de facto. 70% com mais do 12º ano. A esmagadora maioria (772/749) coabitando e convivendo com o seu parceiro. A recolha de dados foi realizada online. E a todas elas foram aplicados diversos questionários.
Os resultados foram, de certo modo, surpreendentes:
 - 92,5% destas mães colocam sobre si próprias a expectativa de “apreciar todos os momentos dos primeiros tempos da vida do meu bebé”, e 90,9% acham que terão “de fazer tudo o que for preciso para deixar o meu bebé completamente feliz”. Como se quase nada em si próprias lhes trouxesse dúvidas, reservas ou desalentos na relação que imaginam ou que já têm com o bebé. Se bem que, quando questionadas acerca do modo como estariam entusiasmadas sobre o futuro papel como mãe, 33% negassem esse entusiasmo;
 - 61,7% destas mulheres não aceitam as mudanças do seu corpo;
 - 51% concordaram com a afirmação “Por vezes sinto-me só no mundo e sem apoio”;
 - A maioria destas mulheres reconhece que a satisfação com o suporte familiar no decurso da gravidez é superior aquele que têm por parte dos amigos ou dos seus parceiros românticos;
 - 523 mulheres indicam ter necessidade de uma relação romântica; 76.5% das mulheres revela não ter um parceiro com quem possa partilhar os seus pensamentos e sentimentos mais íntimos; e 72.1% refere não ter um parceiro romântico que lhe dê apoio ou a encoraje;
 - As mulheres que deram à luz há menos de 6 meses sentem-se mais solitárias do que as mulheres grávidas.

É claro que este estudo tem limitações. Mas considerando estes resultados como tendências que nos dão que pensar, o grau de exigência que as mães colocam sobre si acerca dos seus próprios desempenhos maternais é tremenda. Por vezes, parece gerar uma espécie de censura prévia diante de quaisquer dúvidas, reservas ou desalentos que uma mãe possa ter diante da sua experiência de maternidade. Num registo mais psicanalítico - desculpem! - talvez não fosse exorbitante falarmos dum “supereu materno”. Uma espécie de expectativa de desempenhos maternos “quase perfeita” que leva a que as mães, por mais que sejam excelentes mães, se sintam sempre em falta ou sempre aquém daquilo que acham que deveria dar.
É, ainda, muito significativa a percentagem de mulheres que, a par desta exigência que colocam, pouco entusiasmadas com o seu futuro papel de mães, como se não deixassem de ver no horizonte transformações profundas que a maternidade lhes traz que, presume-se, talvez as assuste e as faça temer.
Se bem que todos associemos a gravidez “ao rei na barriga”, a percentagem de mulheres que vive o corpo na gravidez duma forma penosa dá que pensar. Porque talvez a relação com o bebé não sirva de suporte para as transformações e as limitações corporais da gravidez. Se bem -será legítimo que se pergunte se não seria de esperar que - se a relação com a gravidez, com o bebé e com o pai do bebé fossem robustas - a relação com as mudanças do seu corpo não acabem por se “diluir” nessa vinculação.
É legítimo que se presuma que a percepção de solidão da mãe seja acompanhada por idêntica experiência pelo pai. Ainda assim, a forma como as mulheres que vivem uma primeira gravidez enfatizam a solidão que a gravidez lhes trouxe em relação ao pai do bebé é muito significativa. Nomeadamente, quando se referem o modo como o bebé lhes trouxe a consciência da ausência duma relação romântica.
Por outras palavras, a passagem da maternidade à maternalidade não se faz, unicamente, com a presença do bebé. Ou seja, nem todas as mães são capazes de ser tão boas maês como desejam quando nasce um bebé. Acabando ele por introduzir grandes discrepâncias entre a parentalidade dos pais e a sua conjugalidade. Ou seja, o bebé corre riscos significativos de fracturar a relação dos pais.
Por fim, e em função de tantas e de tão significativas mudanças, a função do bebé para amar será sempre mais idealizada do que devia ser. Porque, por mais que não queira, coloca sobre ele muitas expectativas de o ter como suporte de transformações e duma experiência de solidão que, seguramente, apanham uma mãe desprevenida.

* A solidão das mães na primeira gravidez: estudo exploratório sobre as experiências de solidão da mulher durante a primeira gravidez.Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde de Ana Raquel Tavares Alves. Babylab da Universidade de Coimbra. Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação.

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