Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso website. Ao navegar neste website está a concordar com a nossa política de cookies.
Afinal, ainda há humanidade!
O respeito pela dor e pelo sofrimento de quem perdeu um filho. Antes dele “nascer”.

Não sei onde pára a humanidade dos serviços de saúde quando permitem que uma mulher, que vai expulsar (!) “O seu bebé”, que morreu dentro de si, possa estar num quarto de hospital, ao lado de outras mulheres que estão a ter “as mesmas dores de parto”, que antecedem o nascimento dos seus bebés. Ou ao lado de uma mulher que requereu uma interrupção voluntária da gravidez.

E não sei, também, onde pára a nossa humanidade quando parecemos nem sequer conseguir imaginar a dor física e a dor da alma que se passa numa mulher quando, de cada vez que se senta na sanita, expulsa de dentro de si o seu bebé. Aos bocadinhos. Ou quando, por exemplo, o transporta (morto) dentro de si e espera que o seu corpo colabore e o expulse.

A dor por uma interrupção de uma gravidez é uma perda. É a morte de um filho! Que pode não ter um rosto; mas que tem um comboio de sonhos que se construíram, minuto a minuto, só para ele. E tem um nome. E tem uma história; para sempre. Que vai da forma como ele se desejou, às dúvidas de estar para chegar; ao momento em que a confirmação que ele existe chega, de rompante. Até às reacções do pai, da família e dos amigos. Até à sensação de se ter uma luz especial. E de se ser única, na graça de o ter.

A dor pela morte dum filho, que nasceu dentro da nossa cabeça e que morreu antes de o termos no colo, é uma perda brutal! De tão acrobática. Porque implica ter uma barriga que o guarda e o protege. Enquanto ele, entretanto, se transformou num cadáver; dentro da mãe. Por mais que continue a ser “o seu” bebé.

A dor pela morte dum filho que ainda não nasceu pode trazer outras perdas, também; logo de seguida. Desde logo, a perda do pai do bebé. Que, nalgumas circunstâncias, se exclui do processo de abortamento. Por dor. Por indiferença. Ou por “falta de sensibilidade”, simplesmente. Depois, a perda dos avós. Que, por vezes, marcam presença pela ausência. Ou se inibem de abraçar. Ou têm a palavra errada n’ o momento em que não a podem ter. Depois, dos amigos. Que se entaramelam com os gestos. E erram; por embaraço, por exemplo. Mas que magoam; como quem não tem clemência por um coração já desolado.

A dor pela morte dum filho que ainda não nasceu traz a humilhação. A culpa. E a vergonha. E rasga a alma; quando se abandonam as roupas de grávida e se volta ao normal. E traz o pavor de sair à rua, pela primeira vez, e de escutar mais um comentário: “Então, como vai o bebé?...”. E a aflição de voltar ao trabalho e ter de enfrentar olhares, comentários e silêncios. E a inveja de ver outros bebés. E a revolta de se ter um sofrimento que nos faz em destroços, ao pé de outras mães, para quem os dias parecem ser sempre de sol.

A Nova Zelândia passou a atribuir três dias de licença remunerada, por luto, às mulheres vítimas de perda gestacional. E aos seus parceiros, também. Afinal, ainda há humanidade! Mas sete dias seria um período mais razoável. Em nome do respeito pela dor e pelo sofrimento de quem perdeu um filho. Antes dele “nascer”.

subscreva