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Amar é conhecer
E ninguém o sabe melhor do que a mãe e o bebé

Amar é conhecer. E um bebé sabe-o melhor do que ninguém. Porque aquilo que ele questiona - quando é olhado e lido, por dentro, pela mãe - não é só a qualidade do amor que ela tenha por ele. Um bebé lê, com precisão, e de forma tremendamente intuitiva, os afectos que trespassam do olhar materno. E procura nele uma consensualidade de sentimentos a que, todos nós, acabamos por chamar amor. Mas, a par daquilo que ele lê, de afectivo, na mãe, um bebé avalia a forma como a mãe “decifra” a sua forma (um bocadinho rudimentar”) de comunicação. Quer quando ela, entre muitos choros diferentes, intui os motivos do seu protesto. Ou quando distingue, com clarividência, entre choros de “textura”semelhante, um choro de apelo, do choro de interpelação, de lamúria ou de dor, por exemplo. Ou quando aprende a ler o olhar do bebé e o decifra, com pormenor, e ante-sente, adivinha, antevê e antecipa o seu pensamento, através da forma como ele comunica, numa percepção (subliminar, aos olhos dos outros) tão clara, para si própria, e tão esclarecida e eficaz, que - a pretexto desta forma de escutar o sentir do bebé dentro de si, ler-lhe o olhar e antecipar-lhe os gestos - há quem interprete esta competência materna como se ela se tratasse ora de instinto (maternal) ora de “sexto sentido”. Mas não. É só comunicação humana. Premium, sem dúvida. Trata-se daquilo de que todos somos capazes quando amamos e conhecemos, ao mesmo tempo. E não só escutamos a forma como os outros se perscrutam em nós como, em função disso, convertemos em gestos, em respostas e em palavras a sua ressonância no nosso “coração”.

Acontece que, sem ter a mesma desenvoltura de transformar em gestos ou em palavra, aquilo que sente na mãe, um bebé decifra - ele, também - todos os seus estados emocionais. Através daquilo que lê, com minúcia, no seu olhar. Pela forma como ela coordena a expressão emocional, a palavra, os gestos e corpo sempre que se relaciona consigo. Pelo tom, pela robustez, pela clareza e pelo ritmo da sua voz. Ou por causa dos compassos que ela coloca na relação.

Ora, aquilo que assusta um bebé não é só a forma como ele sente que a mãe possa não decifrar a sua comunicação (intencional!). Mas, também, como os afectos que o seu olhar, a sua postura e os seus gestos transmitem, mesmo que ela corresponda, de forma eficaz, aquilo que um bebé lhe comunica e espera que ela solucione. Se a mãe, ao mesmo tempo que é eficaz nas suas respostas, lhe transmite afectos bons, ela torna-se mágica. Se lhe transmite afectos bons e não corresponde à comunicação do bebé ou se corresponde envolvendo o olhar e os gestos numa tensão que o leve a senti-la misteriosa ou opaca, ela torna-se insegura (e, até, confusa) para ele. Se a forma como corresponde aquilo que ele lhe pede e os afectos que ela lhe transmite ora são, profundamente, depressivos, ora ansiosos, ora, até, hostis, ela é sentida como assustadora e má. Com a certeza de que uma mãe que, hoje, possa ser mágica, amanhã, poderá tornar-se (episodicamente ou de forma continuada) opaca. E por aí adiante. Com todas as alterações que isso terá na expressão, nas atitudes, no comportamento e no corpo do bebé.

Como já, antes, disse, nem o bebé aprende a língua materna nem a mãe aprende a língua do bebé. A mãe aprende a língua daquele bebé e o bebé aprende a língua materna, daquele momento. O que cria uma espécie de “dialecto” único (e irrepetível!) que só eles os dois conseguem entender, em toda a sua profundidade. E que faz com que, por isso, se leiam, comuniquem e se entendam. E se sintam e adivinhem. Sabendo ambos, como mais ninguém, que amar é conhecer.

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