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Bebés em fúria
E os "nervos em franja" dos pais

Os bebés, quando falam, têm sempre razão. Na verdade, a maior dificuldade, quando se observa a sua fala, não tem tanto a ver com aquilo que eles dizem. Mas, sobretudo, com a nossa dificuldade em interpretarmos, de maneira eficaz e “em cima” do tempo, as suas “palavras”. Sobretudo, porque eles falam, em “bebezês”. O que, à falta duma tradução permanente, deixa todos os pais saudáveis - pelo menos, em alguns momentos -  numa grande aflição.  Isto porque os bebés utilizam, muitas vezes, o choro para falar. E não choram, de todas as vezes em que pretendem falar, sempre da mesma forma. Choram com algumas “nuances” que nem sempre encontram um “sexto sentido” de pais tão afinado como é preciso.  

 

O choro que os bebés usam, quando pedem colo, é mais grave e menos continuado. Choram um bocadinho e param. Choram de novo - como quem grita, um bocadinho - clamando por atenção; e voltam-se a calar. E repetem esse choro, como quem dá pequenos gritinhos... até perderem a paciência. Os bebés usam o choro para dizerem - por outras palavras, claro - qualquer coisa como: “Repara em mim! Pára de dizer “Olá!” e outras coisas simpáticas. Se estou a dar às pernas e a fazer movimentos com os braços, quero que me pegues!”.

O choro que os bebés usam quando têm sono já é diferente. Aproxima-se da lamúria. Uma espécie de choro por “quase nada”. É um choro mais prolongado, que espera que os pais os peguem. De preferência, com os seus bracinhos mais ou menos cruzados, e os embalem num ângulo de 45º, para cima e para baixo, pausadamente, para que sosseguem. E, depois, que os aninhem nos braços, com um olhar aconchegante e sem muitas palavras para que, só então, eles adormeçam. O choro de sono procura um rosto familiar que os sossegue. Uma espécie de “anjo da guarda” que não se assuste nem se agite com um choro forte que, aos poucos, vai perdendo intensidade e vai passando de alguma irritação às “queixinhas” (um choro mais agudo que, à medida que vai adormecendo, ele desfaz, aos bocadinhos).

Já o choro que os bebés utilizam quando têm dores é mais agudo. Muito mais “estridente”! Varia consoante a “guinada” da dor. E, geralmente, sossega um pouco mais (quando a dor se deve às cólicas, por exemplo) quando um bebé é deitado de barriga para baixo, nos braços dos pais, e, sem que eles o privem de ver o mundo à sua volta, o embalam de forma ritmada e, razoavelmente, serena.

É claro que os bebés falam, igualmente, com os olhos. E, adequando-se ao nosso olhar, expressam tudo aquilo que sentem na forma como nos fixam, mais ou menos demoradamente. Como falam através do modo como abrem muito os olhos ou, ao contrário, entreabrem, simplesmente. Ou pela forma como se deixam agarrar e apertar. Ou, ainda, como parecem fugidios, sem nunca se adequarem aos nossos gestos e ao nosso corpo. Todas essas formas de falar dizem coisas muito diferentes umas das outras. Que, de forma muito intuitiva, os pais vão aprendendo a “legendar”. 

Seja como for, os bebés saudáveis ficam, por vezes, em fúria. E isso acontece quando o seu grau de irritação em relação aos pais os leva a “ferver” com as nossas dificuldades em os entendermos. É claro que este é, de todos, o choro mais “desgovernado “. O mais agudo e o mais aflitivo. Aquele que os leva a ficar vermelhuscos e capazes de nos quererem, rapidamente, “longe da sua vista”. Um bebé em fúria coloca, mais do que ninguém, os “nervos” dos pais à prova. E é aquilo que mais nos leva a duvidar de sermos bons pais. É, aliás, natural que todos os (bons) pais fiquem divididos entre a extrema preocupação por desconhecerem os motivos do seu choro e alguns repentes de ira, que guardam, sobretudo, para si. Mas que um bebé sente tão bem e de forma tão intuitiva que, como a sua fúria e a dos pais a “incendiarem-se” uma à outra, às duas por três, o bebé fica quase sem fôlego e os pais numa aflição que não se resolve. Em resumo, a fúria dos bebés é própria dos bebés saudáveis. Daqueles que têm “coração grande” e “alma de guerreiro”. A fúria dos bebés é saudável se ela não for constante e inconsolável. Perante uma birra, num primeiro momento, o bebé precisa de sentir o olhar e a voz de quem o segura. Depois, um ligeiro movimento, ritmado, na nuca, a sossegá-lo. A seguir, o nosso embalo, suave, sem o apertarmos demais. Logo depois, ele sossega, finalmente, e respira fundo. É sempre um descanso descobrir, mais uma vez, que temos bons pais.

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