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Casamento à segunda vista
A vida de um casal depois de um bebé

(São tantas as pessoas que me falam do modo como a gravidez lhes "estragou" a sexualidade que me parece não ser demais voltar ao assunto.)

É verdade que duas pessoas, fisicamente, exaustas não serão apaixonantes, por aí além. É verdade que dois pais que vivem em contra-ciclo (quando um vai à rua o outro fica com o bebé ou quando um dá um salto ao cinema o outro adia o café que prometeu a uns amigos) quando se encontram, "de passagem", entre "sonos trocados" e biberões, nada corre bem. E é verdade que uma mulher, durante a amamentação, não se sente, muitas vezes, com espaço para erotizar a sua relação amorosa. E que, depois de amamentar, possa não se reconhecer no seu corpo, sobretudo se o peito, a barriga e a cabeça mudaram. E é verdade que se uma pessoa não se sente tão bonita como queria se ache pouco atraente e, até, se envergonhe. E não deixa de ser, igualmente, verdade que uma mãe fique, depois de ser mãe, um bocadinho poderosa. E - por mais que nada seja planeado ou, mesmo, pensado - é natural que um homem tente não ocupar muito espaço, tente corresponder àquilo que se espera dele, às vezes, quase peça desculpa por existir e se embrulhe todo quando se trata de repartir um olhar amoroso entre um bebé e a sua mulher e, por vezes, quase peça desculpa quando se trata de assumir que a relação de casal não arrefeceu.

Depois de um bebé, são muitos os casais que passam alguns meses - ou, mesmo, muitos meses - sem que a sexualidade tenha espaço para ser vivida de forma amorosa ou apaixonada. Em muitas alturas, acontece, é verdade, mas de forma sensaborona e, às vezes, quase funcional. Para muitos casais, um bebé traça um antes e um depois na sexualidade. Para muitos outros, compromete-a, para sempre. Ou raramente ela volta a ser o que já foi. Porque as abordagens de um homem esbarram numa rejeição ora activa e aberta ora subtil e insinuada a qualquer aproximação corporal. Porque, a medo, todos perdemos o feeling e, ao dar-se por isso, fica um lado desajeitado a mandar nos gestos que os transforma, quase sempre, em num “apocalipse Now” quase diário. Porque, depois, há sempre uma sutura do parto que mereceu um comentário de um médico que parece tornar-se num obstáculo para qualquer veleidade de prazer. E há comentários, fora de tempo, que mais parecem "bocas". Com o "Tu não me ligas!", à frente de todos. O pior é que muitos casais não falam dos pequenos-nada que, todos juntos, se transformam em ressentimentos que estragam a sexualidade. E não conseguem ser explícitos acerca das dificuldades que se acumulam, quase todos os dias, numa sexualidade muito pouco conversada. E, depois, as pessoas com medo encolhem-se, os músculos contraem-se e nada parece no lugar para que o amor corra bem. A seguir, trocam as horas de se deitar. Deitam-se costas, um para o outro. Deseja-se que se amem mas não se desejam. Ou, pelo menos, não o fazem livres e seguros de se sentirem desejados.
E, quando um primeiro fim de semana a dois surge, - muito tempo depois do bebé nascer - parece servir mais para repor o sono ou para que duas pessoas que se conhecem muito deixem de ser estranhas uma para a outra do que para acertar o passo com uma sexualidade que adoeceu.

A sexualidade depois dum bebé "constipa-se". Por vezes, por muito tempo. Por vezes, para quase sempre. É verdade que a sexualidade não volta a ser igual. Mas pode ser melhor. Se for conversada e conversada e conversada. Com muitos pormenores. Muitas vezes. Se for assim, um bebé pode ajudar a sexualidade dos pais a transformar-se num casamento à segunda vista

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