Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso website. Ao navegar neste website está a concordar com a nossa política de cookies.
E depois do bebé, haverá, ainda, espaço para a relação dos pais?
A resposta será: logo se vê...

Ontem, encontrei um pai num congresso que, com grande entusiasmo, me confidenciou que, ao fim de cinco anos de ter sido pai, ia ter, com a sua mulher, o seu primeiro fim de semana “a dois”. É verdade que cinco anos são uma imensidão de tempo, sobretudo quando se trata dum casal ter um fim de semana só para si. Mas é, também, verdade que este casal não é, de modo algum, uma excepção quando se trata de nos darmos conta do impacto dum bebé na relação dos pais. A questão que se coloca poderá ser: e depois do bebé, haverá, ainda, espaço para a relação dos pais? É claro que numa leitura apressada e carregada dum optimismo escorregadio a resposta será: “sim!”. Mas se quisermos pôr verdade na resposta a uma pergunta como essa ficaremos, provavelmente, pelo: “talvez”. 

Já disse, em inúmeros momentos, que a depressão puerperal é uma designação que me incomoda imenso. Em primeiro lugar, porque insinua uma “aragem” de um certo desequilíbrio em relação a algumas mulheres quando aquilo que se passa se dá, rigorosamente, ao contrário. Ou seja, é quase inacreditável que entre a exaustão física, as noites mal dormidas que não têm fim, uma relação de casal em stand by  o burburinho emocional na cabeça da mãe, a sua solidão e tudo o mais que se lhe exige, não haja mais mães a desequilibrarem-se “verticalmente”. Sendo certo que um bebé ”atropela” uma mãe e leva-a a sentir-se cansada, cheia de dúvidas e sem saber para que lado se há-de virar, um ror de vezes. Em “100%” das situações! Isto é: aquilo a que chamamos depressão puerperal é, simplesmente, o conjunto de consequências psicológicas  destes factores todos a misturarem-se e a emaranharem-se uns nos outros. Mas, todavia, mães funcionam; fazem acontecer; cuidam; organizam; repartem-se; e eu sei lá mais o quê.

Embora se fale muito da mãe, o pai também existe. E coloca-se na relação mãe-bebé, na maior parte das vezes, num registo do género: “façam de conta que eu não estou aqui…”. Também ele tem noites a dormir e a acordar (embora, claro, nada se compare). Também ele “vai a jogo” mudando fraldas e dando banho, com alguma “assistência em viagem” da mãe do bebé. Também ele tenta corresponder a um conjunto completamente novo de solicitações, generosamente, de forma a aligeirar a vida da mãe. E faz por fazer com que “as suas coisas” ocupem pouco espaço. Também ele “cai para o lado” mal o silêncio lá em casa se torna real, e adormece em qualquer lado. E acolhe as repreensões e o choro fácil e “as crises de mau humor” da sua mulher duma forma meio desajeitada, faltando-lhe o “verbo” fácil  e gestos amorosos que a sosseguem. E também ele se sente meio “abandonadote” no meio daquela relação. Mas sem grande espaço para impor condições, protestar ou, sequer, conversar, de forma clara e límpida. Por outras palavras, não se esqueçam que a depressão puerperal do homem existe. Por motivos muitos semelhantes à de uma mulher. E em consequência do turbilhão de transformações que um bebé lhe traz. 

E, depois, há relação do casal. Um e outro deslumbrados e desvanecidos com o bebé. A repartir as novas conquistas que ele faz. Num afano, quando se trata de o fotografar. Sempre “a 10 centímetros do chão”, numa paixão desmedida por ele, sempre o embalam, o acalentam, ou lhe pespegam um beijo na sua cabeça sem cabelo, que “cheira a bebé”. É claro que, no entretanto, a relação dos pais deixa, ela-mesma, de ter episódios de paixão. O corpo da mãe, aos olhos dela, fica diferente e, até, um pouco “estranho”. Enquanto que o corpo do pai fica, muitas vezes, a partir do meio da gravidez, mais “redondinho” e menos cuidado. Ou seja, sentem-se um bocadinho “feios” um para o outro. Os gestos amorosos vão sendo mais espaçados e menos intensos, enquanto os dois vão sendo vencidos pelo cansaço. A sexualidade do casal fica num patamar um bocadinho funcional e, muitas vezes, com uma “aura” de desinteresse por parte da mãe do bebé por causa da exaustão mas, também, em função duma enorme insegurança pelo seu “novo corpo”. Enquanto o pai do bebé faz abordagens desajeitadas que, por vezes, suscitam melindre e revolta. Ou seja, é normal que a relação de casal se deprima, ela própria, um bocadinho, também. E deprimir-se, recordo, significa que ambos se sentem desamparados, simplesmente, em função do conjunto de consequências psicológicas  destes factores todos a misturarem-se e a emaranharem-se uns nos outros.

Daí que “a regra” seja esperar um ano, e dois, e três ou... cinco anos para que um casal se sinta no direito a ser um casal. Cada um deles, mais apaixonado que o outro pelo bebé. E cada um dos dois ou mais cúmplices e mais companheiros ou mais pais e menos namorados.

A pergunta que vos deixei no início foi: e depois do bebé, haverá, ainda, espaço para a relação dos pais?  A resposta será: logo se vê. Tudo fica mais fácil se cada um dos pais não viver nenhuma destas transformações em silêncio e quase com vergonha. A verdade é que não faltarão recursos aos pais para se amarem. Mas sobram ressentimentos silenciosos que, falados de forma esquisita ou por “bocas” que se soltam, arrasam com uma relação. Tanto mais quanto o amor por um filho os faz aos dois querer amar e ser amado assim, a esse nível, por quem reparte connosco o amor por ele. O que, sendo uma expectativa mágica, exige mais e mais da mãe e do pai em relação um ao outro.

subscreva