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E o teu marido, ajuda?*
A difícil vida de um pai

A coisa passa-se assim: a mãe cuida do bebé; eu cuido da mãe, claro. E Deus, no caso de não estar num dia em que esteja distraído, cuida de mim. É assim. Mas, às vezes, a vida é injusta. Como é que uma pessoa tem direito a ser qualquer coisinha digno de algum registo quando ao seu lado tem alguém que, apesar da sua modéstia, acaba por ser supermulher e supermãe?

A vida dum pai, quando nasce um bebé, não é nada, (mas, mesmo) nada fácil! Às vezes, uma pessoa faz um esforço para não ocupar muito espaço. Não faz ondas. Funciona cheio de dedicação, quanto se trata de ir comprar fraldas às 11h da noite ou à farmácia, sempre que é preciso. E traz, cheio de ternura, o jantar. E põe a roupa na máquina. E pensa nas compras. E lava a louça e arruma a cozinha. E tudo sem protestar, com bondade e com dedicação. Mas (há sempre um mas!) quando se é pai e falamos demais, é porque a paciência para nos escutarem acerca daquilo que temos para dizer já foi reservada, para os próximos meses, pelo bebé. Se falamos de menos, é porque “não me ligas nenhuma!” e “estás sempre distraído e não ouves ninguém”. E está o caldo entornado. E, a tudo isto, um homem não reage: nem com bravura nem com mau humor. Engole o formigueiro que, entretanto, se instala na alma. Conta até 100 e... a vida continua. E o coração - acaba por ser quase um pormenor -  encolhe-se mais um bocadinho. Na verdade (pode não parecer, eu sei) um pai faz jogo de equipa. Enturma-se. Desembaraça-se. E faz! Comparado com a mãe, que trabalha para o bebé em dedicação exclusiva, é verdade que um pai, por mais que não queira, funciona em part time. Mas consegue dar biberões. Mudar fraldas. Dar colo. E - muito importante - consegue sossegar fúrias de bebé ou bebés rabugentos. E preocupa-se com a mãe, e cuida dela, muitas vezes, a medo. E não reage “à campeão” quando ela está “impossível”, de tão cansada. E tenta não ocupar espaço nenhum sempre que ela está triste. De acordo: não é verdade que todos os pais tenham o sono pesado. Às vezes, fazem de conta que estão a dormir. E, sim, nem sempre têm bem a noção da forma como uma mãe se sente super-sozinha quando amamenta, mais ou menos no escuro, várias vezes à noite. Mas o primeiro sorriso não é para nós. Os primeiros sons são todos para a mãe. E a luz dos olhos que um bebé terá para o pai há-de ter, no futuro, dias melhores. 

É por tudo isto que eu acho um bocadinho ofensiva a pergunta: “E o teu marido, ajuda?…”. Relativa ao trabalho de pai e ao trabalho doméstico quando há um bebé ou crianças mais pequenas, claro. E ninguém desmente que, talvez até na maioria das vezes, os maridos acabem por “estorvar” mais do que ajudar. E que, em muitos casos, há maridos que fazem quase questão de se assumirem como “filhos mais velhos”, mais ou menos ciumentos, com o protagonismo que um bebé acaba por ter numa família. Mas porque é que duas mães, quando conversam entre elas acerca do “furacão” que acaba por representar um bebé, terminam sempre por fazer uma espécie de “controle de qualidade” relativa ao pai do seu filho? Mais ou menos assim: “Tem o sono pesado ou acorda sempre que o bebé chora?” “Já mudou uma fralda?” “E ele ajuda?…” Ajuda?!… Ah!, pronto, pensava que as coisas se punham mais no registo de: “Sim, ele existe. Sim, dá mais que o melhor de si. Sim, e sempre que fica aquém, eu rabujo, e exijo, e pronto, ele tem sido precioso para mim.” (Precioso, leu bem!…)

Eu sei que não é de propósito. Mas a forma como o pai de um bebé acaba por ser transformado em “sanduíche” na relação entre ele e a mãe não é muito simpática. E magoa! Vezes demais. Sobretudo quando um homem nem sequer faz questão de ser super-homem. Só gostava mesmo era de ser super-pai.

 

* Diário de um pai amigo da distracção/ 1

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