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Importa-se de tirar a máscara?
Quando as máscaras fazem parte dos nossos dias

Cresci a escutar que “quem vê olhos vê corações”. Talvez por isso mesmo, sempre assumi que os olhos são, realmente, o espelho da alma. E fui aprendendo que, quando olhamos para dentro deles, vimos todo o mundo interior. Os sobressaltos que se tentam disfarçar. A tristeza que se perscruta, lá longe, no fundo da alma de alguém. Uma alegria que se resguarda mas que se intromete em cada um dos nossos gestos. A maldade, claro. A bondade, inevitavelmente. Tudo o que se passa dentro de nós está escrito nos olhos. Mas o nosso olhar não se fica pelos olhos. Saltita pela face. E, depois, volta-se “lá”; e lêem-se os olhos. Depois de se ler o rosto. É estranho que nos olhemos, supostamente, nos olhos e nos sintamos, tantas vezes, tão pouco conhecidos assim.

Talvez porque os olhos se tornem indiscretos quando os olhamos por dentro, as máscaras serviram, muitas vezes, ou para os fazer sobressair, discretamente (fazendo com que eles cativem sem que se traia a identidade de quem se “esconde” neles). Ou para os remeter para o fundo da máscara, deixando em destaque dois buracos escuros. Que intimidam pela forma como um rosto sem olhos, mais que misterioso, assusta e ameaça.

Mas, entretanto, as máscaras que nos protegem da pandemia passaram a fazer parte dos nossos dias. Tudo “normal”; digamos assim. Só que, nestes últimos tempos, conheci imensas pessoas - de máscara, desde o primeiro momento - que se tornaram muito importantes para mim. Porque me ajudaram muito! E que eu precisei muito de perceber se podia contar com elas. E, por isso, como as crianças pequeninas, fui-as olhando, fixamente, nos olhos. Sempre nos olhos! E gostando delas (ou não gostando) por aquilo que comunicavam só com o seu olhar. Mas, nalguns momentos, essas pessoas (porque tomavam um café, porque precisavam de respirar ou fosse pelo que fosse) tiravam a máscara. E a minha reacção foi, repetidamente, de estranheza. A boca e os dentes (sobretudo os dentes!) não eram daquele rosto. Elas não eram iguais! Tinham duas metades do rosto que pareciam não “encaixar” uma na outra. O nariz e a boca delas desencadeou - repentinamente, em mim - uma enorme estranheza. Eu conhecia-as. Pelos olhos. Mas o nariz e a boca pareciam não se conjugar naqueles rostos. E eu - sem querer - olhava-as nos olhos. Voltava ao nariz e, sobretudo, à boca. (Eu não lhes disse, claro...) E sentia-as mais bonitas de máscara. Ou - talvez seja mais isto - mais “esquisitas” sem ela.

Depois, lembrei-me das crianças pequeninas. Das muito, muito pequeninas às mais crescidotas. (Estarei a falar-vos das crianças entre os 0 e os 5.) Imaginando que elas possam sentir algo de muito parecido com o que eu senti, perguntei-me que custos terá a pandemia na forma como as crianças crescem com o rosto das pessoas. E o aprendem a ler. E ligam a testa com os olhos. Os olhos com as bochechas. E tudo com a boca. E descortinam sorrisos e os interpretam. E pegam nisso tudo que sentem e observam. E lhe dão a forma de um som. As crianças precisam do rosto das pessoas para aprenderem a ler. O mundo; e as pessoas! E perguntei: quanto custa a uma criança crescer sem o “rosto”, vivido como um todo? E sem o sorriso nos lábios? Porque nós, as pessoas, olhamos, primeiro, o todo; e, só depois, vamos ao “espelho da alma”; confirmar as impressões que elas trocam connosco. E, agora? Como podem as crianças crescer protegidas da pandemia sem que nós as “estraguemos” com tantas máscaras? Não haverá um certo “negacionismo” em nós acerca dos custos (grandes!!) que isto tem para elas? Não era altura de - só para elas, e em nome do seu direito a confiar naquilo que vêem - fazermos com que nos caiam as máscaras, dando-lhes o nosso rosto todo para falar com o seu?

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