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Não é verdade que os bebés não morram. Morrem! Às vezes, antes de nascerem.
E passa-se tudo tão depressa e de forma tão sísmica

Não é verdade que os bebés não morram. Morrem! E, às vezes, morrem, mesmo, antes de chegarem a nascer. E passa-se tudo tão depressa e de forma tão sísmica, e o sofrimento que eles deixam é tão injusto e tão violento que, entre eles morrerem e uma mãe renascer, aos bocadinhos, fica-se na dúvida se uma parte de si não terá morrido, silenciosamente, com ele, para sempre. Mas pior que a sua morte - que, já de si, faz com que “a lei natural da vida” não se entenda - sempre que morre aconchegado na mãe tudo é mais brutal e mais pungente. E mais enlouquecedor, até.

E, depois, somam-se momentos maus sobre momentos maus. Que se gravam, para sempre. Aquele em que, depois dela interpretar os sinais do seu corpo, tem um obstetra, assustado, a procurar, atarefadamente, um movimento do feto ou um ruído cardíaco que dê, a todos, uma justificação para que continuem a acreditar que ele irá renascer. A seguir, o mundo a ruir sobre si enquanto a barriga, crescida, lhe dá falsas esperanças. Depois, uma solidão que dispara. E uma dor que seca todas as lágrimas por mais que algumas teimem em correr. E, depois, há a culpa. A sensação, insuportável, dum falhanço que se deu por sua causa. Por alguma coisa que possa não ter feito. Ou porque não tenha desejado, num segundo que fosse, fosse o que fosse a propósito do seu bebé. Como se aquele castigo trouxesse a dúvida de poder ser merecido, por mais que que nada nem ninguém o justifique. Logo a seguir, a vergonha. O terror de transmitir às pessoas a morte do seu bebé. E, nalguns momentos, logo a seguir a alguém lhe dar os parabéns pela gravidez ou compartilhar consigo cumplicidades de mãe acerca do bebé. E a dor (uma dor sem fim) que se tenta resguardar - porque é íntima e, sobretudo, sua - e ninguém a entende. E a revolta! Porque um pai hesitou em desejá-lo. Porque ela exagerou nos esforços físicos. E por todo o comboio de razões e mais cismas que corroem a alma e a definham. Logo depois, a inveja. Porque há sempre alguém que lhe é próximo cuja gravidez caminha tranquila, e não se entende que seja a si, logo a si, que lhe tenha saído o “privilégio” de tamanha dor. E, logo logo, o pânico. O pavor de poder ser má e rancorosa por evitar telefonar a uma amiga por uma nova gravidez anunciada ou por se recusar a visitá-la ou dar-lhe as boas-vindas por outro bebé que alguém não deixou que fosse o seu. E, mais adiante, o ódio e o rancor. Em relação a todos aqueles que falharam por não terem percebido a sua dor. E falharam quando, num embaraço, a terão confortado dizendo-lhe que ela seria, ainda, nova para ter todos os bebés que venha a desejar. E, a seguir, mais remorsos. Por causa duma espécie de sentimento de vingança em relação a todos os que, tentando protegê-la, foram discretos demais com a sua dor. E em relação aos outros todos que lhe terão dito coisas insuportáveis como “Tens de ter paciência…” ou “Só Deus sabe as razões pelas quais to levou”. E um terror sem fim por não saber o que há-de fazer às roupinhas do bebé, ao primeiro urso de peluche que lhe comprou e ao nome que lhe queria ter dado (e que, uma parte de si, acha que só pode ter morrido ali e outra - mais irracional, talvez - que o quer guardar e repetir, mesmo contra a sua vontade, noutro bebé que venha a nascer). E, depois, persistem, como pesadelos, as palavras que terá ouvido. Como a necessidade de “expulsar”, naturalmente, o bebé; que é tudo aquilo que uma mãe não entende doutra forma que não seja como uma loucura que nunca aconteceu. E persistem, como um terror furtivo, os momentos em que o expulsou, sozinha, em casa. Com uma dor onde não estava claro se era só física ou se não seria alguém a arrancar-lhe a alma de dentro de si. E, a solidão que isso traz. Sempre mais solidão e mais solidão. E, por vezes, a tortura de sentir que o seu corpo deixou de ser um colo que acalenta e pareça ter-se tornado numa urna que ninguém entende. E, ainda, o trabalho de parto pelo qual possa ter passado. Sem poder, a seguir, ver, agarrar, cheira e falar para o bebé porque, uma parte de si, fugiu de o ver, por recear que fosse feio ou monstruoso e, outra, que temeu que ele fosse um anjo e a levasse a querer fugir, contra todos, com ele só para si. E - pior, e mais louco que tudo - quando, na cama ao lado da sua, outra mulher passava pelas mesmas dores por um bebé que teve um nome, uma festa e um ror de gente feliz com lágrimas no júbilo de o ver, acabado de nascer.

Não é verdade que os bebés não morram. Morrem! E, às vezes, morrem, mesmo, antes de chegarem a nascer. E não é verdade que aí morra só um bocadinho da mãe. Morre uma parte do pai. Às vezes, morre uma porção imensa da sua relação, que não comporta tanta dor nem a compreende. E morrem pessoas da família, que falharam quando não podiam ter falhado. E morrem amigos. E morre o mundo. Morrem os dias. E morre, até, o direito de imaginar outros bebés. E morrem, para quase sempre, todas as pessoas que não entendem que um filho que morre sem chegar a nascer é um filho. Que trouxe histórias. E coisas piegas e ternas. E trouxe o momento em que se descobriu que ele estava a chegar. E as primeiras botinhas. E as “birras de seda” entre o pai e a mãe a propósito da cor do primeiro babygrow ou da escolha dum nome. E as historietas por se ter guardado aquela notícia só para os pais, como um segredo. E se ter mentido e disfarçado por causa das razões pelas quais se deixou de comer requeijão e outras coisas mais.

Um filho que morre antes de nascer é um filho. Às vezes, silencioso. Em demasia. Mas é um filho. Para sempre. Que se guarda num cantinho do coração. Numa espécie de arrecadação secreta que existe no coração de todas as mães. E que, vezes demais, ninguém entende.

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