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"Não fiques triste, que isso faz mal ao bebé!"
Quantas vezes se "partilha" este conselho?

"Não fiques triste, que isso faz mal ao bebé!", embora seja um conselho bondoso e bem-intencionado, devia ser proibido de se dizer a uma grávida!
Em primeiro lugar, porque aumenta, duma forma inacreditável, a "culpa" de uma mãe. Ela terá motivos para estar de "coração apertado", sejam eles quais forem. E já devia chegar que viva a sua dor entre uma clandestinidade irrespirável - para não incomodar ninguém, para se proteger e porque ela sabe que, a seguir, hão-se surgir estes comentários que a magoam "até à alma" - e os breves momentos em que "fala" dela como quem pede desculpa, deixando uma "ponta" solta aqui e outra ali, para que alguém atento a pegue (quer quando se descreve, quase sempre, como "muito cansada" ou, por exemplo, "esquecida", "distraída" ou, mesmo, "esgotada").
Depois, porque um comentário desses soa quase a reprovação. Como se a mãe "quisesse" estar triste. Como se houvesse mães que "escolhem" estar tristes. Ou fosse "frágil" em demasia (quase "fraca") para se deixar tomar pela tristeza e parecesse não fazer nada para lhe fazer frente. Como que não fizesse nada para se opor com uma determinação "guerreira" à dor.
Depois, porque estar grávida e estar triste fossem estados incompatíveis. Como se não se pudesse viver um estado de graça e ser incapaz de o viver, ao mesmo tempo.
A seguir, porque uma frase como essa é interpretada por ela como se fosse "má mãe". Pouco protectora. Quase demissionária. Ou, mesmo, "indolente". Ou "passiva", quando se trata de proteger o seu bebé.
Ainda, como se não deixasse de ser "egoísta". E parecesse pensar muito mais nela (ou na sua dor) que no bebé.
E, finalmente, como se não lhe fosse dado o direito de reagir a uma frase como essa - dita, das diversas vezes, num tom muito diferente que, ora arranha, ora magoa muito, ora é comiserativa, ora é hostil - duma forma espontânea e clara que a leve a ripostar e a "respirar de alívio".

Convenhamos que não há nenhuma mãe que, grávida, não tenha os seus momentos de tristeza. Por causa da gravidez (que nunca é tão idílica como quando ela se imaginou). Pelas mudanças do corpo, da vida pessoal, do trabalho, etc. Por causa das preocupações que um novo bebé sempre traz. Porque o parto não é uma perspectiva "soalheira". Porque se fantasia "estragos" no bebé sempre que ele não é, em todos os minutos, desejado de braços abertos. Etc.

Uma grávida só fica triste porque é saudável! Porque não se abstém de sentir e de pensar. E porque imagina e fantasia. Logo, o que faz mal, durante a gravidez é a forma solitária com que, muitas vezes, se chora. O modo, quase envergonhado, como se fala daquilo que assusta e inquieta. O jeito furtivo como uma mãe se parte ao meio entre aquilo que "sente" e a forma como se adequa, de forma batoteira, a uma alegria que, muitas vezes, não tem. Ou a forma como se cala e aceita as censuras que lhe fazem quando lhe dão quase a entender que as "boas mães" nunca vacilam, não têm nem dúvidas, nem receios, nem momentos em que lhes apetece "fugir" da gravidez. A forma proibida como não lhe é permitido "ignorar", de vez em quando, o bebé, "cortar relações" (por uma tarde) com ele, "amuar-se" ou "zangar-se" com ele, "lamentar-se" pela gravidez, etc.

Chega, pois, de haver uma espécie de "brigada de bons costumes" com que algumas mães (às vezes, por preocupação; às vezes, para expiarem noutras grávidas tudo aquilo que as atormenta, em surdina, duma gravidez que correu muito mal nas suas cabeças) castigam as grávidas! Esta tristeza das mães não faz mal aos bebés! Os bebés são frágeis, sim, mas não são tolos. Interpretam, como ninguém, os estados mentais da mãe. Mesmo na barriga dela, lêem-na. E percebem, por todos os sinais que ela lhes dá, que a uma "mãe de ferro" faltaria tudo aquilo que, de mágico, todas as mães dão. Aliás, de cada vez que 2uma pontinha" de culpabilidade "ataca" uma mãe, logo a seguir, ela enche o coração e torna-se mais mãe, ainda. Qual é o mal, então, dela se sentir triste enquanto está grávida?...

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