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Não tem graça nenhuma ter um irmão
E isso, acreditem, não se faz a um filho.

Não tem graça nenhuma ter um irmão! E sentir a mãe mais "metida consigo", o pai mais atento e mais atrapalhado, e haver sempre alguém que acabe a sugerir: "Então, não dás os bons dias à Luisinha?..." (enquanto essa "criatura" nem um com murmúrio nos responde). E não tem graça que nos forcem a esborrachar o nariz sobre a barriga da mãe para lhe pespegar uma beijoca, fingindo que é fixe ter uma irmã.

E não tem graça toda a gente - pais, avós e amigos! - achar imensíssima piada aos fatos d' "a bebé" enquanto ninguém repara, nem por um bocadinho, nas jardineiras que eu acabei de estrear.

E menos graça tem que, para compensar a forma enfadonha e engonhada como me passaram a desconsiderar, alguém pegue nos gatafunhos com que me vingo nos marcadores deste abandono a que todos me condenam e, em vez de perceberem o meu nervoso miudinho e a "raiva de estimação" que cresce em mim, acabem no já clássico: "Ai que bonito!", que mais parece um insulto, como se eu não tivesse uma pequena ideia das coisas sem jeito que, quando quero, eu desenho.

E não tem graça que, enquanto se apaparica o "bercinho" d' "a bebé", a "alcofinha" d' "a bebé" e a "roupinha" d' "a bebé", haja sempre alguém que me diga, como se eu fosse o "único totalista": "E quem é que vai ter uma escolinha nova, quem é?" E, quando eu, quase vomito, só de me imaginar num "castigo" desses, vou para vociferar: "Oh, faz favor, e se fosse incomodar o seu querido filhinho e me deixasse em paz?!...", logo remata:  "...Com muitos coleguinhas!". Ora, se isso é tão bom assim, porque é que não se empacota "a tal Luisinha" e a enviamos para lá?

E não tem graça a mãe ir para o hospital e, enquanto eu fico com um nó no coração com medo que ela morra, por estar doente, pareçam estar todos a fazer uma festa só porque a... "Luisinha" fez com que a mãe não pudesse vir para casa e parecesse estar muito cansada, como se eu tivesse feito alguma coisa que não devia. E, já agora, porque é que "a tal "Luisinha" está deitada ao lado da mãe e a mim, sempre que me chego para ela, há logo quem se alarme e grite: "Cuidado! Não magoes a mãe!", como se eu tivesse alguma coisa a ver com o facto dela estar ali, mais quietinha do que quando eu me constipo.

Não tem graça nenhuma ter um irmão! E acabar com alguém a dizer na nossa cara: "Isso é que é sorte! Ter uma irmã!..." - enquanto me besunta com beijoquices - e acaba a recomendar: "Agora vais ter que te portar muito bem! Porque és o mais velhinho dos manos..." (e ninguém compreende que esse acenar com uma espécie de velhice, não só não me entusiasma como, pior, me faz sentir um bocadinho menos filho que "a tal... Luisinha"! Para além de me sentir promovido, claro... pelas escadas abaixo.

E não tem graça que a dita "senhora", acabada de chegar, se arme em "dona da bola" e, à conta dela, eu leve um "corte no ordenado" de 80% de mãe e de 65% de pai! Porventura alguém sobrevive a uma crise de contas como essa?... E porque é que ao "Ai! Ela está tão linda!" corresponde, quando reparam em mim, a um admirável: "Ele deu um pulo, não deu?...". Porque é que, quando nasce uma irmã, se leva com uma despromoção de lindo a "saltitante", de um dia para o outro?

E não tem graça que as pessoas, sempre que me preparo para as receber de braços abertos, quando me visitam, pareçam ter-se distraído em relação às campanhas das ópticas e não tenham vários pares de óculos bifocais. E ora me deixem de ver "ao perto", ora me deixem de ver "ao longe" e, sempre que uma pessoa espera os amigos dos pais numa atmosfera de "venham de lá esses ossos" eles passam, "a correr", por nós e vejam, primeiro, "a bebé" e, só depois, reparem no cidadão a deitar fumo pelos ouvidos, um metro abaixo. Que, por sinal, é... "a minha pessoa".

E se tem graça - é certo - que nos dêem uma prenda, quando nos visitam, não tem graça nenhuma que, ao pé do "Ferrari dos babygrows" da "Luisinha" eu acabe sempre com a classe B das... prendinhas.

Não tem graça nenhuma ter um irmão! E enquanto o meu coração se despedaça e eu suspiro de tristeza todos elogiem a forma como eu cresci, de repente, e passei a portar-me bem. "Como um homenzinho"... Mas será que ninguém repara que eu estou é inconsolável?... E que, por obra da dita senhora, passei a ser a versão XS do "homem invisível"?...

E não tem graça nenhuma não poder nem "limpar o pó" à "excelentíssima D. Luisinha", nem lhe dar correctivos ou umas boas bofetadas "por conta" dos brinquedos que ela me irá partir. Mas, pior que tudo, é que a "excelentíssima D. Luisinha", sempre que se esganiça, a mãe acha que "ela fica tão querida com este mau génio" enquanto que, aqui o je, deixou de lhe ver reconhecida a "personalidade muito forte", de outros tempos, e ficou encurralado num: "Vá lá, meu filho, não tenhas mau feitio!". Pode uma pessoa adorar uma irmã depois de uma desventura assim?...

E não tem graça nenhuma acordar de noite com "a Luisinha" a chorar, e madrugar com "a Luisinha" a chorar, e não poder "ter cabeça" nem para brincar porque, primeiro, estão as cólicas da " Luisinha", a seguir, "as raivinhas" da "Luisinha" e, finalmente, os dentinhos da "Luisinha". Não deve um cidadão poder ficar de "nervos em franja"?

Não tem graça nenhuma ter um irmão! E sentir que a mãe e o pai ficam assustados e nos fazem quase todas as vontades. E nos deixam passar a dormir na cama deles, comer papa outra vez e usar chucha, mesmo quando não nos apetece andar a passar pelo enxovalho de nos chamarem, como quem nos insulta: "bebé!" (quando, bem lá no fundo, sabemos que esses vícios não são para nós).

E, depois, não tem mesmo graça que toda a gente fale do nosso comportamento como se fosse obrigatório passarmos por uma "regressão". Ora, que fique claro: nós não "regredimos" coisa nenhuma, quando nos nasce um irmão! Nós somos pequeninos mas não somos parvos! Mas, se depois da "tal Luisinha" aparecer, perdemos "direitos adquiridos", ao menos, sempre que todos levam mais a sério as nossas "regressões" do que nós próprios, mal por mal, sempre ganhamos mais alguma coisinha de mãe e de pai e isso não é mesmo de se deitar fora.

Seja como for, não tem graça nenhuma ter um irmão e ter de esperar meses até que ele, de forma irreflectida, nos troque as voltas e nos mexa num brinquedo para que, então assim, lhe "limparmos o pó"! É claro que nem sempre é bom ter ciúmes! Mas entre "esganarmos" a mãe ou beliscarmos a "excelentíssima D. Luisinha", esperavam que eu fizesse o quê?

Ainda assim, não tem graça nenhuma ter um irmão. Até porque eu acho que os pais não gostam de todos os filhos da mesma maneira. E eu desconfio que, porque a mãe e o pai ralham mais comigo, eles gostem, seguramente, da dita "senhora".

Depois disto tudo, se ainda estavam à espera que eu achasse graça a ter um irmão, enganam-se. Não acho! Aliás, parece-me, de certo modo, uma traição. E isso não se faz!

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