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O bebezês
Serve para os bebés dizerem: “que engraçado!”, “que bicho te mordeu?…”

Não é verdade que o choro seja “a linguagem” dos bebés! Singular e exclusiva. Uma espécie de idioma universal. Um “bebezês”, em potência. Claro que eu entendo que pareça ser assim. Afinal, os bebés reclamam, sempre que têm fome, chorando com convicção. E, mal se revolvem, engolidos por um sofrimento, choram com dor e com raiva. E, se o sono se entaramela e os atormenta, chorar é uma forma de apelo. O choro parece ser, assim, a linguagem universal dos bebés. Por mais que talvez possamos falar de quinze tipos de choro diferentes, na verdade, o choro parece ser, à primeira vista, uma linguagem mais ou menos igual em todos os bebés. E representa, sem dúvida, uma forma inequívoca de comunicação.

No entanto, “a outra linguagem dos bebés” (que não o choro) é mais subtil e, seguramente, mais complexa. Eles falam, sobretudo, com os olhos. Na forma como os fixam. Como os abrem ou fecham. No modo como os usam para expressarem emoções e afectos. Como esboçam expressões faciais, coordenando vários músculos do rosto, com os quais comunicam, de forma, aparentemente, rudimentar mas, sem dúvida, imensamente expressiva. E como fazem acompanhar o olhar com pequenos gestos, com tanto de descoordenado como de intencional. Os bebés falam, ainda, pela tonicidade que imprimem ao corpo. E que os faz aceitar o colo, aninhar-se nele ou, pelo contrário, estranhá-lo ou, mesmo, rejeitá-lo. E falam pela vivacidade que imprimem a um diálogo olhos nos olhos. E pela tendência geral do seu comportamento - ora sereno e tranquilo, ora agitado, inflamável, eruptivo ou assustado, aflito ou alarmado. Falam, ainda, na forma como se relacionam com o sono ou com a alimentação, por exemplo. Falam pela forma como o seu corpo, sempre que são sujeitos a períodos levemente exagerados de alguma tensão, de depressão ou de pânico, se expressa através das reacções inflamatórias repetidas, por exemplo. E falam, finalmente, pelos pequenos sons e ultra-sons que emitem. Alguns que só mesmo a acuidade auditiva materna “apanha”, por influência das alterações hormonais trazidas com a amamentação.

O  choro dos bebés é uma linguagem, sim. Mas uma linguagem de protesto, de dor, de irritação, de cansaço ou de apelo. Mas nunca é “a linguagem” das linguagens. Digamos, de forma simplista, que o choro dos bebés é a língua das coisas “más”. Própria de quem sente e intui. E de quem, de certa forma, compreende. Mas que, por falta de vocabulário, se expressa com frequências de som e com expressividades de natureza diferente. Por mais que, à primeira vista, seja só choro. Agora o bebezês já é diferente. Serve para os bebés dizerem: “que engraçado!”, “que bicho te mordeu?…”, “estás mesmo a olhar para dentro de mim?…” e “oh, meu Deus, que experiência mais radical é o teu mau génio!”. E “será que esgotaste o teu plafond de colo?”. Ou: “só mesmo um empurrãozinho na minha fralda, sim?…  Se faz favor!”.

Agora, imagine que temos um bebé a olhar muito fixamente para nós. De olhos bem abertos. Com o olhar muito fixo. E os braços mais ou menos sossegados. A “legenda”, será: “Dás-me só um pequeno sinal em como vale a pena gostares de mim?”.

Ou, por exemplo, suponha que tem um bebé que lê os seus olhos. E que, depois, pára. A seguir, que se afasta do seu olhar. E, passados dez ou vinte segundos, que volta a olhar para si. E que repete essa “dança”, mais duas ou três vezes. A “legenda” será : “Porque é que sempre que eu me escondo tu me descobres?… sempre!” (Já reparou que os bebés começam muito cedo a jogar às escondidas?).

Ou, ainda, calcule que faz uma conversa doce com o seu bebé e que ele - sempre a olhar, atentamente, para dentro de si - faz uma ligeira rotação com o pescoço e o estica, levemente, para trás e, ao mesmo tempo, estica um dos bracinhos e torce o punho, tanto quanto pode. A “legenda” será: “quantas vezes  disse, hoje, que te amo?”.

Em resumo, olhe o seu bebé. Atentamente! Sinta-o. Depois, respire fundo. Finalmente, leia-o com o coração. Em seguida, repita várias vezes o seu movimento. Com jeito, irá saltando de um nível de bebezês para o outro, quase sem dar por isso. Quando aí chegar, e se juntar a isso a língua materna e o maternalês - parabéns! - conseguiu transformar-se numa verdadeira poliglota.

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