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O exaustor como canção de embalar
Quando os bebés ficam "presos" aos sons das máquinas

Imagino que este assunto interesse a um número pequenino de mães e de pais. Mas, desculpem, hoje gostava muito de conversar acerca dele. Vamos falar de bebés prematuros. E, sobretudo, daqueles que ficam dentro duma caixinha de plástico acrílico, com sondas distribuídas por vários orifícios. E com os mecanismos de suporte de vida a azucrinarem-lhes os ouvidos, 24 horas por dia.
Os bebés , na barriga da mãe, têm um meio aquático especialíssimo, ao seu dispor. A temperatura é temperada e funciona melhor que qualquer colchão de água de que venham, mais tarde, a dispor. A mãe move-se ou roda e as transições de postura ou os seus movimentos nunca se traduzem por grandes solavancos. Antes pelo contrário. O útero materno é o "ninho" que, mais tarde, tentamos reproduzir com os movimentos fofos e ritmados do colo. Mas, por outro lado, e por mais que um bebé esteja um bocadinho contorcido e o espaço seja acanhado, esse meio aquático permite uma estimulação corporal que favorece a tonicidade do bebé e que, ao dar-lhe melhor corpo, lhe dá "mais cabeça" e melhor pensamento. Mas ao útero chegam, também, a voz da mãe. Com alguma distorção, é verdade, mas duma forma que permite ao bebé guardar a familiaridade do seu tom. E o ruído cardíaco da mãe que, sempre que ela, depois dele nascer, pega no seu bebé ao colo com a cabeça para o lado esquerdo, aproveita para que, numa comunicação "Morse" muito "secreta" entre os dois, falem um com o outro e se sosseguem. E os sons do mundo, lá fora, que fazem com que o nascimento nunca seja um salto para o desconhecido. E os ruídos viscerais da mãe. E todos os "estabilizadores de humor" que chegam ao bebé através do sangue da mãe que "alimenta" o bebé.
Quando um parto prematuro se dá, todo este "eco-sistema" precioso se rompe, dá um trambolhão por ali abaixo e o bebé é fechado numa caixinha de acrílico. Para que consiga sobreviver, é claro. Mas um espaço que talvez considere, ainda, que o bebé seja muito mais rudimentar de um ponto de vista psicológico do que ele é. Ainda estamos, de certo modo, na "pré-história do bebé", considerando uma incubadora. Aquela caixinha que o salva é muito ruidosa. Mesmo, ensurdecedora. E esses ruídos, 24 horas por dia, durante um mês ou dois, dão cabo da cabeça a qualquer bebé. Para além de toda a estimulação que lhe chegava do mundo e da mãe se ter quebrado, verticalmente. E dele se sentir fechado numa espécie de "cela de isolamento" que, todavia, o salva.
Por isso mesmo, e dependendo do tempo que um bebé está numa incubadora, os meses a seguir fazem com que ele, quando o comparamos com todos os outros bebés, não seja "igual". O choro de um bebé prematuro é mais agudo e mais "agreste". O modo como ele é mais "metido consigo". A forma como ele se sossega a si próprio, mais tarde, é comum. O jeito com que se vira sobre si e, por vezes, se "ausenta" e se retira, também. A maneira como, de vez em quando, nos primeiros anos, ele se alarma e entra em pânico por coisas quase "estranhas" acontece, uma vez ou outra. A forma alarmada como a mãe, mesmo depois dele estar a crescer como todos os bebés, acaba por estar sempre em "modo de pânico" e, de tanto o proteger, acabar a "fragilizá-lo" um bocadinho, igualmente. A par, as mães, com a sua intuição inacreditável, reparam, para sua própria surpresa, que o ruído do secador de cabelo, do exaustor ou do aspirador acalma os seus bebés (antes, prematuros) e os ajuda a adormecer. Como se tamanha barulheira funcionasse melhor que uma canção de embalar. E não é que funciona?…
É claro que os pais de bebés prematuros precisam de ajuda para que, de tanto se tentarem adequar aos vícios de forma que ficam da relação dos seus bebés com a incubadora não enviesem a sua forma de estar, considerando o desenvolvimento dos seus dois ou três primeiros anos de vida. E precisam que alguém entenda o inferno que é viver na aflição do seu bebé poder morrer, todos os dias, que faz com que as mães e pais fiquem de plantão numa unidade de cuidados intensivos e vivam, eles próprios, presos aos sons das máquinas que apitam e que os atormentam, por muitos anos.
Os bebés prematuros - sobretudo os "grandes prematuros" - não são iguais a todos os bebés. Porque sofrem muito mais do que eles. Por mais tempo. E sem o amparo da presença activa da mãe, a ler-lhes os olhos e os comportamentos! E a protegê-los. E é muito importante que não percamos isso de vista. Não para que se entre por uma vertigem de cuidados pouco razoáveis e pouco sensatos. Mas para que não se passe a imaginar que são genéticos muitos dos custos psicológicos de ser prematuro. Mesmo quando, já crescido e espigado, tantas mães imaginam que os filhos são.

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