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Os bebés divorciam os pais?
São um dos maiores testes à relação amorosa dos pais

É verdade que todos nós vamos convivendo com a ideia quase celestial dum bebé. Que leva, em muitos momentos, a que pai e mãe se ajoelhem diante dele e o admirem. E que vejam num bebé uma janela com que o seu amor se aprofunde e se torne mais forte. Mas entre tudo aquilo com que todos fomos convivendo acerca dos bebés e tudo o mais que eles trazem à relação dos pais, nem sempre há quem nos fale acerca do modo com um bebé pode separar os pais.

Um bebé separa os pais, desde logo, quando os coloca, muitas vezes, em “contra-mão” em relação à oportunidade da gravidez. E separa-os na forma como vivem desencontrados a própria gravidez e não a imaginam nem a aprofundam a dois. E separa-os no modo como o bebé se transforma num ressentimento que compartilham mas não dividem, acerca do qual passam a falar por murmúrios, por desabafos ou por silêncios. E separa-os quando um novo bebé é vivido como um obstáculo à autonomia dos pais, ao seu bem estar ou ao equilíbrio financeiro a que tenham chegado. E separa-os quando passa a ser “o responsável” pelo namoro dos pais que “por sua causa” foi interrompido. E separa-os quando “exige” à mãe que se desdobre em cuidados, ao mesmo tempo, pelo bebé, pelas crianças, pela família e por todos os outros compromissos que tenha sobre si. E separa os pais quando a mãe avalia, continuadamente, ao pormenor, todos os gestos que o pai não lhe dedica. E separa-os quando os cuidados e as responsabilidades que pendem sobre a mãe a levam, de desilusão em desilusão, a sentir-se sozinha e abandonada. E a sentir-se um bocadinho explorada, sentindo (muitas vezes) que o pai, entretanto, recuperou a vida que tinha, antes, enquanto ela, um dia atrás do outro, parece estar sempre mais próxima de colapsar. E separa os pais quando o sono da mãe é feito em fanicos e o do pai ora a acompanha ora leva a que ele procure o quarto ao lado, um irmão do bebé, que passa a adormecer todos os dias, ou um sofá, com a justificação que ele trabalha, no outro dia, de manhã. E separa os pais quando o pai se sente ignorado e, até, desconsiderado e, de birra em birra, considera que o seu cansaço se acumula e o leva quase à exaustão ao mesmo tempo que a mãe, de desabafo em desabafo, o repreende e responsabiliza por todas as ajudas que ele não dá (ou, mesmo que dê, ela sente que nunca chegam e ele acha que são demais). E separa, ainda, quando tudo o que eram os pequenos momentos de cumplicidade  de um casal são desarrumados e virados do avesso, e passa a não existir tempo para jantarem a par, para dormirem em sintonia nem para dividirem as pequenas coscuvilhices do dia-a-edia ou, mesmo, o último episódio de uma série que, antes, repartiam. E separa mais, ainda, porque os gestos amorosos de cada um parecem convergir, todos eles, para o bebé, levando a que uma relação amorosa se fraternize, e perca o encanto e o erotismo. E separa, finalmente, quando a sexualidade do casal é gravemente atropelada “pelo bebé”, que faz com que ela deixe de existir e o desinteresse da mãe por ela (por exaustão ou porque o seu corpo, entretanto, se tornou “estranho” e, aos seus olhos, pode ter perdido élan) choca com as abordagens desajeitadas, precipitadas e, até, sentidas como um bocadinho ofensivas que o pai do bebé lhe faz e que, de desencontro em desencontro, levam a que o erotismo e a sexualidade deixem de estar, em “suaves prestações”, na “agenda do casal”. E separa, por fim, quando, em resultado de tantos desencontros, eles deixam de se tocar, deixam de se cumprimentar com um beijo e parecem funcionar “em piloto automático”, quase sempre, em prol do bebé, como se nada mais senão ele mandasse nas suas vidas de todos os dias.

É claro que um primeiro e um segundo bebé podem separar os pais de forma diferente. Na verdade, eu costumo chamar a atenção para a forma como, regra geral, começamos a ser pais quando temos... um segundo filho. Não que um primeiro filho seja uma personagem secundária na vida dos pais. Pelo contrário. Um primeiro bebé, ao “cruzar” em si muitos episódios da vida dos pais - os pais que eles tiveram, os pais que desejavam ter (e que, por algum motivo, não foi possível terem tido), os pais que imaginam ser, os filhos que foram e os filhos que se imaginam a ser capazes de ter e de construir - que acabam por fazer com que ele seja investido com uma “aura” um bocadinho mágica que almofada alguma inexperiência e que faz com que o seu “lado divino” ligue os pais naquilo que, de imaginário e fantasioso, eles construíram. E os ligue, inclusivamente, mesmo considerando as “fissuras” que a relação deles já possa apresentar. Ou os ligue apesar deles se sentirem muito “atropelados” por todas as transformações que ele traz às suas vidas, quase todas elas, com imensa surpresa. Mas um segundo filho, mesmo quando planeado, já não terá sobre si esta “missão” (um bocadinho mágica) que funciona como uma espécie de analgésico que “segura” todas as transformações muito profundas e as dores que traz à vida dos pais. Um segundo filho vale, sobretudo, por ele próprio. E arrisca-se a ser menos fantasiado e menos investido dum papel tão reparador em relação à infância dos pais e aos seus próprios pais. E isso sente-se nos desabafos das mães em relação às suas aquisições, à forma como adormece ou ao modo como dorme, por exemplo. E as expectativas que os pais colocam sobre ele divergem muito. Porque um o sente mais ou menos “inoportuno” e o outro se sintoniza mais intimamente com ele. Ou porque é chamado para um cuidado mais cúmplice ou porque o sexo deste segundo bebé acaba por ser sentido como mais desafiante por um dos pais. E porque dois filhos, dependendo da idade de um e de outro, exigem muito mais deles os dois, e lhes trazem mais culpabilidade quando se trata os compararem e de se dividirem, “igualmente”’ por ambos. E porque, todo o “pacote” de transformações que trazem à vida de cada um dos pais e à sua relação aumenta, geometricamente, de forma considerável. A ponto de, depois dum segundo filho, persistir, silenciosamente, a dúvida, dentro de cada um, se o seu seu estatuto de pais não terá comprometido, de forma quase irreparável e (quem sabe?) para sempre, a sua qualidade de amantes, a sua disponibilidade para se darem como amáveis e a sua capacidade para se darem amorosamente um ao outro. Como antes de os filhos nascerem acontecia.

Os filhos separam os pais, sim. Grande parte das vezes. E divorciam-nos, sem dúvida; vezes demais. E - pior, ainda - fazem com que eles se transformem - quase irreparavelmente - sobretudo, em pais. Quantos pais, depois de um ou mais bebés - permanecem um casal? Poucos. E quantos pais conseguem continuar a ser amantes e amáveis? Menos, ainda. E quantos lutam por ser, amorosamente, iguais aquilo que eram antes deles nascerem? Muito poucos, mesmos. E quantos ficam mais próximos, mais cúmplices, mais amantes e mais amáveis? São raros. Preciosamente (e, perigosamente) raros. 

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