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Prematuro uma vez, prematuro para sempre
Porque, por mais que ele se desenvolva e seja mexido parecemos nunca "desligar", nem deixar de viver em "modo de alarme"

É muito difícil que um bebé que nasce prematuro deixe, alguma vez, de ser "prematuro". Porque, por mais que cresça bem (e cresça muito) e se desembarace, a sua imagem, fechado numa caixinha de vidro e cheio de sondas, nunca nos sai da cabeça. Porque a impotência, naquele momento, nos deixa numa agonia silenciosa que ninguém entende. Porque o pavor dele colapsar e morrer, a qualquer momento, nos persegue de dia e de noite. Porque deixá-lo numa unidade de prematuros e vir dormir a casa nos empurra para o viver entre o torpor irracional de o estar a abandonar e a trair e o pânico do telefone poder tocar, a qualquer momento, com uma notícia má. Porque voltar para casa sem ele e ter um irmão à sua espera e não ter explicações para lhe dar faz com que só se queira chorar e se não possa, e se queira dar colo e nada nos saia como nós queríamos. Porque o sentimento de se ter falhado nalgum bocadinho da gravidez e de não se ter conseguido levá-la até ao fim atormenta e persegue os nossos pensamentos, com uma culpa sem rosto que dá cabo de nós. Porque, por mais que eles falem, os médicos e os enfermeiros nunca nos dizem aquilo que precisamos de escutar; sobretudo, que ele está bem e que vai sobreviver e que vai sair daquele lugar, rapidamente. Porque o tempo, ali, não passa a correr, como de costume, e os dias são consumidos por um alerta constante comandado por mais um apito que toca e pelo medo - enorme! - de irmos ficando indiferentes a todos os alarmes. Porque os pais, entre si, são solidários mas mais parecem sossegar nos outros os medos sem nome que não sossegam em si. Porque o pai e a mãe, para se protegerem um ao outro, parecem frios, mais ou menos "automáticos" e quase sem alma e funcionais um com o outro. Porque a esperança dele sair amanhã só não é mais insuportável porque ele continua preso, no mesmo sítio, como se não fosse nosso e não fôssemos os únicos a mexer nele como só nós sabemos. Porque, às vezes, somos assaltados por muitos pensamentos maus e há dias em que nos vem à ideia que talvez devêssemos ter guardado o nome que lhe demos para um outro bebé, que venha a seguir, no caso dele morrer. Porque os nossos pais parecem mais frágeis do que nós e não nos sossegam nem nos dão colo e deixam-nos entregues a uma solidão que não pára de crescer. Porque trazê-lo para casa nos rejubila e, ao mesmo tempo, nos apavora, por estarmos sempre com medo que não respire, que não mame como devia e que cresça menos do que precisamos para que, finalmente, nos possamos agarrar a ele sem o receio que nos deixe cair. Porque o sol e a rua se tornam perigosos e passamos a viver ao serviço do pânico dele fazer uma infecção e não ter toda a imunidade que nos torne, a nós, também, imunes aos sobressaltos do seu crescimento. Porque, por mais que ele se desenvolva e seja mexido parecemos nunca "desligar", nem deixar de viver em "modo de alarme". Porque quem vive connosco parece que nunca sofre como nós nem que nunca percebe todas as palavras que nunca lhe dizemos e, de repente, nos parecemos sentir acompanhados, unicamente, pela nossa dor.

É muito difícil que um bebé que nasce prematuro deixe, alguma vez, de ser "prematuro". Porque, por mais que ele tenha um metro e noventa e seja um adolescente saudável, há sempre alguma coisa em nós que faz senti-lo frágil. E a precisar da nossa protecção. E a nunca nos deixar de o ver ali, mínimo, a fugir dos nossos dedos. Todos os dias.

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