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Uma hora pequenina
O trabalho de parto não é só um momento mágico

A certa altura, olhei para o lado, e tinha uma mulher, sozinha, com uma barriga enorme, “em fim de tempo”, ao pé de mim, gemendo, quase com delicadeza. Primeiro, olhei-a, de surpresa. Depois, quando me dirigi a ela e lhe perguntei se precisava de ajuda, sorriu com bondade, agradeceu, e respondeu que não. Que era “só” mais uma contracção. Seriam seis da manhã. Mais ou menos. E a maternidade em que estávamos ia acordando, devagar. Depois, desenvolta, levantou-se, e foi “andando à pinguim”, em direcção à sala de partos, com uma dignidade quase inacreditável. Não, não é verdade que a gravidez seja só um “estado interessante”. Ao pé de uma grávida “em fim de tempo” (para mais, quando se dirige, sozinha, para um parto) quem é que ousa sentir-se capaz seja do que for?

O trabalho de parto não é só um momento mágico. É mágico! E é comovente. E enternecedor. E é esgotante. E esmagador! Pode um parto não deixar de marcar a relação de uma mãe com um filho, para toda a vida? Pode, sequer, tudo aquilo que um pai dá de si a um bebé ser equiparável aos momentos em que uma mãe - com a solidão de quem está entregue a si própria (ao contrário da vontade do pai, seguramente); de quem é observada, e sofre mais um “toque”; e fica expectante enquanto os registos sobre o bem-estar do bebé se repetem - aguarda pelo momento do parto? E como se espera que não se desmorone quando, com benevolência, lhe pedem que vista uma bata hospitalar, e que não reaja sem o arrepio infantil de quem vai dormir fora de casa, longe daqueles que a protegem, unicamente, pelo facto de não estarem sempre ao pé de si? E podem ser equiparáveis as dores agudas, que vêm e voltam, e que, por mais que lhe peçam que respire fundo e “com calma”, a deixam entregues a um sofrimento que, por mais que o pai do bebé o queira dividir consigo, acaba por ser só seu? E quem lhe analgesia os medos e, mais que os medos, uma “passerelle” de fantasmas que o parto destapa, num rompante? E quem lhe sossega o pânico (ou o pavor) de não resistir ao parto e poder morrer, de que nunca se fala mas que “está ali!” (sempre!) a olhar para si? E quem entende, realmente, que o esforço - indescritível! - de fazer nascer o seu bebé não acaba ali, depois de expulso, porque, a seguir, há que expulsar a placenta, ser-se objecto de todas as manobras de reversão do útero, e ser cosida, por dentro e por fora, num tempo que se prolonga e prolonga e não acaba? E quem é que lhe dá um sinal - só um, que seja - que o seu bebé é aquele, e aquele, mesmo, nem que fosse para lhe dizerem: “Vamos pôr a pulseirinha ao seu bebé aqui, ao pé de si?” Ou para lho mostrarem e o deixarem cheirá-lo? E quem é que, depois, a deixa “respirar”, entre o esforço imenso que vai de “dar à luz” até lhe devolverem o bebé, já aquecido, e a deixarem, preparada, numa cama, como se aí, finalmente, já pudesse descansar? E quem é que explica às equipas que um parto faz com que a mãe ganhe um bebé e perca o seu pai, porque isso de os pais “assistirem” ao parto não pode ser (porquê: “assistirem”?…), porque eles têm de estar no parto, participar nele, e que têm o dever de auxílio, e que nunca estão a mais sempre que fazem por acrescentar? E onde estão os pais em todo o trabalho de parto? E onde estão as equipas a educá-los para o parto (devia ser preciso?) e os pais a reclamarem a sua própria presença, em todos os momentos? E quem é que, depois dum esforço do tamanho do mundo, entende que as noites, numa maternidade, nunca chegam para descansar? E quem é repara que, no meio de tanta exaustão sobra, ainda, a “culpa de mãe” por terem deixado um irmão mais pequenino, depois de um banalíssimo: “A mãe vem já. Sim?...”, que a deixa dividida entre a ânsia de os juntar na maternidade, ao pé de si, e o impulso, protector, de não querer “trair” o seu amor? E que entre tudo o mais que a ocupa, por dentro, ainda temos “a mãe”, ao telefone, a gerir os filhos mais velhos, da cama da maternidade, mesmo que ela, por vezes, mal se consiga mexer?

A certa altura, era importante olharmos para o lado e, ao vermos uma barriga enorme, “em fim de tempo”, nos sentíssemos proibidos de desejar “uma hora pequenina”. As horas de parto jamais são pequeninas! São mágicas, sim! São comoventes, seguramente. E, por isso mesmo, enternecedoras.  Mas são esmagadoras e esgotantes! Ao pé de uma grávida “em fim de tempo” quem é que ousa sentir-se capaz seja do que for?

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